A Carta de Pero Vaz de Caminha

Este mês propomos para leitura A Carta de Pero Vaz de Caminha, inserida na Coleção Clássicos e Contemporâneos dirigida por Jaime Cortesão (1884-1960) e editada em 1943.

Jaime Cortesão, formado em Medicina, foi poeta, historiador e político[1]. Republicano fervoroso concebe inicialmente a História como um modo de legitimação da República, de renovação do país e da formação do cidadão (Magalhães, 1). Voluntário na Primeira Guerra Mundial, na juventude (Castro 2002, 98), foi director da Biblioteca Nacional (Magalhães, 4). Lutou contra a ditadura militar, mas saiu derrotado, em 1927, o que motivou a sua saída de Portugal, onde retornaria, em 1957 (Magalhães, 8). Durante o exílio passou por Espanha e França, de onde saiu aquando da invasão alemã, em 1940 (Magalhães, 9). Procurou regressar à pátria, mas o seu passado republicano impediu-o, acabando por ser preso (Sousa 2010, 205). Segue para o Brasil, onde trabalhou no Real Gabinete Portuguesa de Leitura, na Biblioteca Nacional, no Instituto do Ministério das Relações Exteriores e colaborou, ainda, como Comissário da exposição do Quarto Centenário da Fundação de São Paulo (Magalhães, 9). Com o seu regresso ao país manteve o seu empenho cívico e a tarefa de divulgação da História que perdurou até à sua morte (Magalhães, 10). De assinalar, também, os trabalhos desenvolvidos sobre os descobrimentos e a história do Brasil.

Através desta coleção, pretendia-se defender e divulgar a cultura portuguesa no Brasil, apresentar os escritores brasileiros que redigiram sobre Portugal e os portugueses que escreveram sobre o Brasil (Cortesão 1943, I). Um dos grandes objectivos era reforçar o vínculo entre Portugal e o Brasil. Com esta finalidade, compreende-se o motivo da escolha da Carta de Pero Vaz de Caminha para número um desta coletânea.

Pretendia-se para além de apresentar a Carta – com uma reprodução fac-símile associada a uma transcrição paleográfica cuidada – analisá-la, tendo em atenção a nova documentação descoberta e interpretá-la à luz de novas metodologias. Outro elemento a reter consistia no facto de Jaime Cortesão pretender chegar ao maior número de pessoas, como se pode verificar nos dois tipos de transcrição do texto de Caminha – uma transcrição obedecendo a critérios paleográficos rigorosos e a outra adaptada à linguagem atual, mas sem deturpar o relato de Caminha –, e a colocação de notas no fim da publicação, para não quebrar a leitura e “…não afear o texto…” (Cortesão 1943, 197).

A análise inicia com um estudo preparatório que ajuda a enquadrar o documento e facilita a sua compreensão. Jaime Cortesão presta especial cuidado à apresentação do autor, referindo a sua origem, cidade do Porto[2], e ao percurso da carta, referindo o seu (aparente) esquecimento; anota ainda os problemas existentes nas respetivas transcrições/traduções; e as dificuldades/dúvidas de interpretação, nomeadamente no que se refere à identificação do género literário a que pertence, literatura de viagens.

Sobre a questão do descobrimento do Brasil, apresenta o percurso realizado até chegar à Terra de Vera Cruz. Estuda a construção da Carta e a coerência de discurso. Aborda a importância e as informações que a narração de Caminha apresenta ao nível da fauna, da flora, da geografia e da etnografia. No capítulo “A Terra Nova e o Homem Novo”, refira-se a imagem realista que transmite, dando grande atenção à descrição das populações indígenas (Vieira 2013, 43-54).

Jaime Cortesão, perante a narração de Pero Vaz de Caminha, defende que “…a Carta de Caminha é o auto oficial do nascimento do Brasil e do Novo Mundo” (Cortesão 1943, 112). Faz uma análise da expressão com que termina a Carta, “deste Porto Seguro da vossa ilha de Vera Cruz” (Cortesão 1943, 110), onde explica que o termo ilha tem um sentido mais lato, pois a designação de Terra de Vera Cruz remete para terra firme e não para uma ilha (Cortesão 1943, 110-111).

No capítulo destinado às notas é de assinalar a sua preocupação em relação à utilização de expressões que levantavam dificuldades de compreensão, bem como a de fundamentar os seus argumentos.

De destacar, da investigação desenvolvida, a sólida base documental e bibliográfica, o mapa da baía Cabrália – com o fundeadouro dos navios e a localização das cerimónias religiosas – e as notas que revelam a sua grande erudição.

Com efeito, a obra pretendia ser um meio de divulgação da cultura luso-brasileira e, ao mesmo tempo, uma obra científica e rigorosa, que procurava, como já foi dito, ir ao encontro de todos os públicos.


[1] “Jaime Cortesão” acedido a 19 de março de 2019, http://livro.dglab.gov.pt/sites/DGLB/Portugues/autores/Paginas/PesquisaAutores1.aspx?AutorId=8679

[2] Veja a este respeito CASTRO, José Acácio 2002 – “Jaime Cortesão e a cidade do Porto”. In I Congresso sobre a Diocese do Porto: Tempos e Lugares de Memória: actas. Centro de Estudos D. Domingos de Pinho Brandão; UC – Centro Regional do Porto; FLUP – Departamento de Ciências e Técnicas do Património, vol. I, pp. 95-105.

Bibliografia

CASTRO, José Acácio 2002 – “Jaime Cortesão e a cidade do Porto”. In I Congresso sobre a Diocese do Porto: Tempos e Lugares de Memória: actas. Centro de Estudos D. Domingos de Pinho Brandão; UC – Centro Regional do Porto; FLUP –  Departamento de Ciências e Técnicas do Património, vol. I, pp. 95-105, acedido a 20 de fevereiro de 2019,http://hdl.handle.net/10400.14/3715.

Cortesão, Jaime 1943. A Carta de Pero Vaz de Caminha. In Coleção Clássicos e Contemporâneos. Livros de Portugal.

Magalhães, Joaquim Romero – “Jaime Cortesão” acedido a 19 de fevereiro de 2019, http://dichp.bnportugal.pt/imagens/cortesao.pdf.

Sousa, Jorge Pais de 2010. “Jaime Cortesão: o escritor combatente na I Guerra Mundial e a defesa intransigente de uma República democrática e inclusiva”. In Biblos, n. s. VIII acedido a 19 de março de 2019, http://hdl.handle.net/10316.2/32533

Vieira, Andresa Cristina Corga. 2013. Por terras de Vera Cruz: os olhares do experienciado: Caminha, Mestre João e piloto anónimo. (Dissertação de Mestrado, Universidade Aberta, 2013), acedido a 4 de março de 2019, http://hdl.handle.net/10400.2/3060.

Eduardo Monteiro | março 2019