ARCAS E BAÚS

Viajamos pela coleção de mobiliário do Museu de Lamego, diversificada e expressiva na qualidade intrínseca “A primeira cousa que desperta de entrada o interesse do visitante, preocupado com a esthetica das cousas, é o typo variado de mobiliário que em todas essas salas se ostenta abundantemente. (…) do seculo XVI e fins do seculo XVIII, oferece á vista uma synthese resumida da evolução ornamental da mobília durante este vasto período (…)” (Rodrigues, 1908,10).

Às matérias-primas como a madeira, o ferro, o couro ou os têxteis, associam-se os vários mesteres, imprescindíveis à sua execução, animando um intenso mercado que se avoluma com o desenvolvimento socioeconómico, respondendo às necessidades funcionais do quotidiano, procurando conforto e afirmação, quer no espaço privado quer no espaço público: “…no século XVII, o emprêgo exclusivo das madeiras de qualidade originou no desenho geral do nosso mobiliário um apuro de elegância artística que sobremaneira conveio à fixação das suas mais típicas qualidades orgânicas e decorativas.” (Guimarães e Sardoeira, 1924, 21-22). Actividade importante para a região, “… pela barra do Douro passava uma produção oriunda do Alto-Douro, Entre-Douro-e-Minho e Beiras (…) Alguma desta produção (…) poderá ter sido fabricada em Lamego por artífices como Manuel de Sousa, ensamblador (…) João Ribeiro, torneiro, (…) António Mendes Coutinho, entalhador, (…) Manuel Martins, carpinteiro, Manuel Costa, latoeiro… ou Manuel Pereira Serralheiro (…) Entre o mobiliário exportado para a Galiza entre 1681-1713, figuravam tamboretes, baús e cadeiras forradas ora de “moscovia”, ora de “couro do Brasil” (…), como os que revestem baús, cadeiras e bancos de espaldar da colecção do Museu.” (Bastos e Proença, 1999, 12-13)

Acompanhando a viagem do navegador [1] destacamos o conjunto dos móveis de conter, porque deles se teriam atulhado as suas naus… Marcados pelo carácter utilitário e pela mobilidade, feitos em materiais económicos ou preciosos, depurados ou ostensivos, grandes ou pequenos, guardam todo o tipo de bens, dos mais comuns aos mais nobres. Servem o quotidiano, preenchendo os espaços domésticos, circulando no exterior próximo ou viajando para longas distâncias. Representados nas outras artes, presentes em inventários e testamentos, firmam a sua importância em diversos «Regimentos». “O «Regimento» de 1572…falava da sistematização das medidas das arcas dimanada da Câmara da capital e o de Guimarães, de 1522, indica os comprimentos usuais de execução escalonados em palmos. O próprio «Regimento das cazas das Índias e Mina» …no Cap. 123º, sobre as «arcas y almarios» do próprio escritório, suas fechaduras e uso, traslada uma provisão real de 1575 que diminui e unifica as dimensões dos caixões que se levavam e traziam nos porões das naus das armadas da Índia.” (Ferrão: 1990, Vol. II, 242)

De relevar as influências e permutas que as viagens de navegação e o domínio dessas áreas geográficas proporcionaram. Matérias-primas, técnicas e modelos, que adaptados e recriados deram um cunho peculiar ao mobiliário português. “Na 1ª metade do século XVII (…) esboçam-se as mais marcantes características no emprego frequente do couro lavrado, fixado por brilhante pregaria…, nas madeiras utilizadas (a nogueira e o carvalho) que vão sendo progressivamente substituídas por madeiras vindas de África, da Índia, ou do Brasil (pau santo, teca ou vinhático)” (SOUSA, 2000, 27)

Num esforço de síntese na diversidade que tipifica estes móveis: aspetos formais, estéticos, simbólicos e contextos, tomamos como peça do mês um baú registado nos inventários de 1821, 1826 e 1860 [2].

BAÚ
Pinho, couro, damasco e latão
Portugal, Séc. XVIII
Dim.: A. 52 cm; L. 118 cm; P. 61 cm
Antigo Paço Episcopal de Lamego / Mitra (?)
Museu de Lamego, Inv. Nº 515
Fotografia: DGPC/ADF/ José Pessoa

“Na Sacrestia da Capella (…) Baú vermelho de marroquim, vermelho, pregadura dourada grande, forrado de damasco verde, avaliado em oito moedas de ouro— 38$400 …” (Bastos, 1999, 61, 115-116) O baú de caixa paralelepipédica, tampo convexo ladeado de abas é de madeira revestida a couro pintado. Exibe pregaria em composições cordiformes de remate flordelisado, fechos de latão recortados e vazados. Nas ilhargas argolas com espelhos igualmente recortados. O interior forrado a damasco, teria guardado os pertences dos prelados, paramentaria, alfaias litúrgicas ou outros objetos.

BAÚ (pormenor do interior)
Pinho, couro, damasco e latão
Portugal, Séc. XVIII
Dim.: A. 52 cm; L. 118 cm; P. 61 cm
Antigo Paço Episcopal de Lamego / Mitra (?)
Museu de Lamego, Inv. Nº 515
Fotografia: DGPC/ADF/ José Pessoa

E uma arqueta do Legado Fausto Guedes Teixeira [3]. Esta presente no Mobiliário Artístico Português [4].

ARQUETA
Mogno ou vinhatico escurecido (?); angelim , ferro estanhado
Portugal, séc. XVII (?) – 1ª metade do séc. XVIII
Dim.: A. 37 cm; L. 47 cm P. 30,5 cm
Legado – Fausto Guedes Teixeira
Museu de Lamego, Inv. Nº 503
Fotografia: DGPC/ADF/ José Pessoa
FECHO
Desenho
João Amaral, 1924
Digitalização a partir da obra: Guimarães, Alfredo; Sardoeira, Albano (1924). Mobiliário Artístico Português. Porto: Ed. Marques de Abreu.

De formato retangular, com tampa plana sustentada por pés torneados em forma de bolacha, de época posterior, foi executada em madeiras exóticas, que aqui se destacam pela sobriedade dos elementos decorativos, circunscritos às pequenas tachas e aos espelhos dos fechos. Entre a gaveta e o fundo teriam existido pequenas perfurações para arejamento do conteúdo. “Trata-se … de uma peça refeita a partir de elementos antigos…” (Bastos, 1999, 62). Com as vivências que lhe adivinhamos ou as aventuras que povoam o nosso imaginário, continuamos a viagem em que o objecto nos transporta, agora a convite de uma arca e de um baú.

[1] Viagem de Circum-navegação de Fernão de Magalhães

[2] IAN/TT, Mitra de Lamego, Livros 49; 50; Documentos citados e transcritos (Bastos, 1999, 115-128)

[3] Cadastro dos Bens de Domínio Público / 1942 / Procº 1-A.1 Legado de Dr. Fausto Guedes Teixeira. Refira-se a importância do mobiliário do legado do Dr. Vasco de Vasconcelos e recentemente o contributo da doação de D. Maria José Melena Dias.

 [4] (Guimarães e Sardoeira, 1924, 97-98, 101). Esta obra conta com ilustrações de João Amaral primeiro Director do Museu.

Bibliografia

Bastos, Celina; Proença, José António (1999). Museu de Lamego. Mobiliário. Lisboa: Instituto Português de Museus

Ferrão, Bernardo (1990). Mobiliário português. Porto: Lello & Irmão Editores. Vols. I a IV

Guimarães, Alfredo; Sardoeira, Albano (1924). Mobiliário Artístico Português. Porto: Ed. Marques de Abreu.

Pinto, Maria Helena Mendes (2000). O Mobiliário do Museu Nacional de Arte Antiga através de catálogos e roteiros. Lisboa: Instituto Português de Museus.

Rodrigues José Júlio (1908). O Paço Episcopal de Lamego. Porto: Typ. A. Vap. Da Empresa Litteraria e Typocraphica. Separata do Boletim da Associação do Magistério Secundário Official: 7-32

Sousa, Conceição Borges de (2000). Exposição in Roteiro Mobiliário Português. Lisboa. Ed. Instituto Português de Museus / Museu Nacional de Arte Antiga.

Georgina Pessoa | março 2019