Ásia de João de Barros

Através da nossa viagem pelos livros, propomos para leitura Ásia de João de Barros – Dos Feitos que os Portugueses Fizeram no Descobrimento e Conquista dos Mares e Terras do Oriente, de João de Barros, publicado pela Agência Geral das Colónias, entre 1945-1946. É a 6ª edição, atualizada na ortografia, com anotações de Hernâni Cidade e de Manuel Núrias.

João de Barros foi um historiador, escritor e alto funcionário, no reinado de D. João III (Buesco 2005, 1). Dentro das suas obras destacam-se a Crónica do Imperador Clarimundo e as Décadas da Ásia. Na Crónica do Imperador Clarimundo recria as raízes da família real portuguesa, associando-a ao rei húngaro (BARROS 1953, XV-XVI). Esta crónica funcionou como a primeira tentativa de descrever a epopeia portuguesa (Barros 1953, XXXII), o que contribuiu para que o rei incumbisse Barros de registar os feitos dos lusos na Ásia (BARROS 1945, 5).

A função de feitor da Casa da Índia, que ocupou cerca de trinta e cinco anos, permitiu-lhe aceder a informação política, militar e relatos dos acontecimentos, que auxiliaram na elaboração da obra (Buesco 2005, 1).

O autor era detentor de uma formação humanista e de vasta erudição, projetou o seu trabalho, seguindo o formato de Tito Lívio (Buesco 2005, 1), visível na organização em décadas, bem como na linguagem usada e na visão da história como “mestra da vida” (Rocha 2011, 48). 

O projeto inicial do trabalho obedecia a três partes: “A primeira é a conquista, a qual trata de milícia; a segunda navegação, a que corresponde a geografia, e a terceira comércio, que convém à mercadoria” (Barros 1945, 13). O ambicioso plano pretendia, na primeira parte, analisar os acontecimentos militares ocorridos na Europa, na África, na Ásia e na América. Na Europa, desde a conquista dos romanos da Península Ibérica; na África, desde a conquista de Ceuta; na Ásia, desde o Infante D. Henrique e na América a partir da descoberta do Brasil (Barros 1945, 13). Na parte da navegação pretendia apresentar uma geografia de todo o mundo conhecido e em relação ao comércio, procuraria descrever os produtos, pesos e medidas (Barros 1945, 13). Perante esta organização compreende-se que as Décadas da Ásia estavam inseridas num projeto mais vasto, que o autor não conseguiu cumprir. Todavia, pelas várias referências, ao longo da parte dedicada à Ásia, comprova-se a existência de outras obras, como a Geografia, o Comércio e a África, que teriam desaparecido (Rocha 2011, 53 e Loureiro 2018, 19-20).    

As Décadas da Ásia encontram-se divididas em quatro volumes, que correspondem às quatro décadas. Em termos cronológicos a I Década incide entre 1420 e 1505, a II Década, termina em 1515, a III Década prossegue até 1525 e a IV Década atinge o ano de 1539 (Rocha 2011, 52).

Em relação à sua publicação, as duas primeiras décadas, foram impressas em 1552 e 1553, a III década em 1563 e, por fim, a última década, publicada em 1613, ou 1615 (Rocha 2011, 27) e organizada por João Baptista Lavanha, por decisão de Filipe II (Barros, 1946, VII). De assinalar, que Lavanha efetuou algumas alterações, mas procurando manter o estilo de João de Barros (Barros 1946, VII).

A Ásia de João de Barros inicia com o panegírico a D. João III, em seguida analisa a conquista islâmica da Península Ibérica, a reconquista, a expansão e os descobrimentos da costa de África. Em seguida analisa o reinado de D. João II e a procura do caminho para a Índia. Nesta década é de assinalar, o capítulo V, do terceiro livro, sobre a preparação da descoberta do caminho marítimo para a Índia, onde menciona o contributo de dois judeus, “…Rabi Abrão, natural de Beja, e a outro Josepe, sapateiro de Lamego” (Barros 1945, 96), dado a Pero da Covilhã. De referir, ainda, que o judeu lamecense detinha informações relevantes sobre a Índia, uma vez que estivera em Bagdad, onde tomou conhecimento da importância de Ormuz no domínio comércio das especiarias (Barros 1945, 96). Ao longo das quatro Décadas da Ásia apresenta-se a ação governativa dos Vice-Reis da Índia, descreve povos, costumes, batalhas, povoações, portos, ilhas e países. De registar, também, na III Década, livro quinto, nos capítulos VIII a X, a apresentação da viagem de Fernão de Magalhães. De reter, ainda, a Apologia, na IV Década, onde João de Barros responde as críticas de que o seu trabalho era alvo.

Em relação às fontes utilizadas por João de Barros é de assinalar a sua grande erudição, uso de fontes portuguesas – como as crónicas, documentação oficial -, de escritores da antiguidade, do relato de Marco Polo, e, ainda, de documentação proveniente do Oriente (Loureiro 2018, 23-29, Rocha 2011, 54-58).

Em relação à edição da Agência Geral das Colónias é de reter a introdução de notas, para facilitar a compreensão do texto. Como referiu Hernâni Cidade esta obra era “…mais citada do que lida…” (Barros 1945, VII) procurou-se, por esse motivo, divulgar um dos livros mais importantes, para o estudo dos descobrimentos portugueses.

Bibliografia

Barros, João 1945. Ásia de João de Barros – Dos Feitos que os Portugueses Fizeram no Descobrimento e Conquista dos Mares e Terras do Oriente. Vol. I. Agência Geral das Colónias.

Barros, João 1946. Ásia de João de Barros – Dos Feitos que os Portugueses Fizeram no Descobrimento e Conquista dos Mares e Terras do Oriente. Vol. IV. Agência Geral das Colónias.

Barros, João 1953. Clarimundo. In Colecção de Clássicos Sá da Costa. Vol. 1. Livraria Sá da Costa.

Buescu, Ana Isabel 2005. João de Barros (1496-1570), acedido a 11 de junho de 2019, http://hdl.handle.net/10362/11182.

Loureiro, Rui Manuel 2018.Revisitando as Décadas da Ásia: Algumas observações sobre o projecto historiográfico de João de Barros. In e-Spania, juin 30, 2018, acedido a 12 de junho de 2019, https://journals.openedition.org/e-spania/27836.

Rocha, Sara Maria Milreu Casais de Almeida 2011. Dinâmicas de poder dos intérpretes/língua portugueses na Ásia de João de Barros. (Dissertação de Mestrado, Universidade Aberta, 2011), acedido a 12 de junho de 2019, http://hdl.handle.net/10400.2/2100.

Eduardo Monteiro | junho 2019