Cartografia e cartógrafos portugueses dos séculos XV e XVI

Ao prosseguir viagem através dos livros, destacamos, este mês, a obra de Armando Cortesão, Cartografia e cartógrafos portugueses dos séculos XV e XVI (Contribuição para um estudo completo), editada em 1935.

Armando Cortesão (1891-1977) evidenciou-se em vários assuntos, entre os quais a agronomia, relações internacionais, cartografia, Expansão e estudo das colónias[1], estando este bem patente no seu percurso profissional, de que destacamos: a sua participação na Missão Geodésica, em S. Tomé e Príncipe (1917-1918); a representação da Delegação Portuguesa nos Congressos coloniais, em 1921 e 1924; o Comissariado Geral de Portugal, na Exposição Internacional, de 1930[2]; a que se juntaria a direção da Agência das Colónias, que assume desde a sua criação, em 1924, até 1932, altura em que é demitido (Andrade 2014, 29-33).

Após o seu afastamento da Agência das Colónias, por motivos políticos, tem como objectivo escrever «História da Administração colonial portuguesa», (Cortesão 1935, XXXVII) mas, com o aprofundar a investigação, compreende a importância da cartografia: “Antigo cartógrafo, propusemo-nos então ser cartólogo, tentando fazer a história da cartografia do período mais brilhante da vida nacional. Eis a origem dêste livro” (Cortesão 1935, XXXVII).

A par do interesse pela investigação histórica, envolve-se na luta contra o regime político, que vigorava em Portugal. Ao ser descoberta a sua colaboração com o jornal clandestino A Verdade, Armando Cortesão viu-se forçado a fugir para Espanha, onde se juntou ao grupo antirregime (Andrade, 2014, 35-43). Contudo, com o início da Guerra Civil espanhola, muda-se para Londres, onde se destaca como voluntário, na Segunda Guerra Mundial, o que lhe valeu o reconhecimento do rei Jorge VI, de Inglaterra (Andrade 2013, 28-31). De assinalar, também, as funções exercidas, no pós-guerra, na Unesco (Andrade 2013, 32-35).

Como se compreende, a obra deste mês surge profundamente marcada pelo alinhamento ideológico do autor e pelo ambiente em que foi produzida. Aspeto que se pode verificar na dedicatória “À Pátria querida e distante, que sempre procurámos bem servir”. (Cortesão 1935, VII). De referir, a este propósito, que as divergências com o novo regime contribuíram para o atraso da edição da obra em três anos. Tanto que, a entidade a publicar, inicialmente seria a Imprensa da Universidade de Coimbra, acabou por ser a Seara Nova (Andrade 2014, 81). Para além da falta de apoios institucionais e financeiros, que limitaram os objetivos da investigação (Cortesão 1935, XXXVIII). 

No seu trabalho, o autor procura desenvolver e fomentar o estudo da cartografia. Apesar do grande contributo português, na época dos descobrimentos, é de assinalar a escassez de trabalhos sobre esta temática. Situação que contrastava com os numerosos trabalhos estrangeiros, sobre cartografia portuguesa (Cortesão 1935, XLI).  

Cortesão inicia o estudo com uma análise à cartografia desde a Antiguidade até ao séc. XV e uma abordagem sobre a criação e evolução das escolas de cartografia portuguesa (Andrade 2014, 82). Em seguida, analisa a questão das Molucas, a obra de Pedro Nunes e apresenta algumas cartas náuticas portuguesas – anónimas e desaparecidas -, bem como o seu impacto em mapas estrangeiros; prossegue com uma apresentação dos vários cartógrafos em atividade, no período em estudo; e, ainda, com uma análise sobre Cristóvão Colombo acerca da sua naturalidade, na qual defende a primazia portuguesa na chegada à América (Andrade 2014, 84); destacando, por fim, o contributo do Visconde de Santarém no desenvolvimento da cartografia. Apesar do autor procurar “…ser sempre imparcial e verdadeiro” (Cortesão 1935, XL), verifica-se a ênfase dada à importância dos descobrimentos portugueses, geralmente relegados para segundo plano, quando comparados com a chegada de Colombo à América (Cortesão 1935, XXX).

A vastidão do tema em análise impede-o de desenvolver todos os assuntos como pretenderia, porque “…exigiriam tal soma de trabalho e de tempo que mais ainda se dilataria o volume deste livro e a data do seu aparecimento” (Cortesão 1935, XXXVI).

Apesar de ser uma publicação, onde se evidência um discurso nacionalista, de enaltecimento e defesa dos feitos dos portugueses, é de assinalar a pesquisa desenvolvida, as estampas reproduzidas, os índices que auxiliam a consulta, o que contribuiu para que esta obra constitua um marco para a história da cartografia portuguesa.


[1] Andrade, Rui – “Armando Cortesão”, acedido a 1 de fevereiro de 2019, p. 1, http://dichp.bnportugal.pt/imagens/armando_cortesao.pdf.

[2] Andrade, Rui – “Armando Cortesão”, acedido a 1 de fevereiro de 2019, p. 1, http://dichp.bnportugal.pt/imagens/armando_cortesao.pdf.

Bibliografia

Andrade, Rui Silvestre de 2013. Armando Cortesão (1891-1977) – Subsídios para uma Bibliografia, acedido a 1 de fevereiro de 2019, http://www.academia.edu/18745207/Armando_Cortes%C3%A3o_1891-1977_-_Subs%C3%ADdios_para_uma_Biobibliografia.

Andrade, Rui Silvestre 2014. Armando Cortesão (1891-1977). Ideologia e nacionalismo na historiografia da cartografia portuguesa dos séculos XV e XVI. (Dissertação de Mestrado, Universidade de Lisboa, 2014), acedido a 1 de fevereiro de 2019, http://hdl.handle.net/10451/15674.

Andrade, Rui – “Armando Cortesão”, acedido a 1 de fevereiro de 2019, http://dichp.bnportugal.pt/imagens/armando_cortesao.pdf.

Cortesão, Armando 1935. Cartografia e cartógrafos portugueses dos séculos XV e XVI (Contribuição para um estudo completo). Seara Nova.

Eduardo Monteiro | fevereiro 2019