Casa Timorense

A diáspora portuguesa é quase uma condição obrigatória imposta pela geografia e pela história, como o testemunha a aventura do navegador[1] que temos vindo a acompanhar. Voltado para o mar, o território português foi sendo a casa dos povos que aqui aportaram com motivações comerciais ou de conquista, em permanência ou de passagem, formando a raiz étnica e cultural que esteia a nossa identidade. Plural e diversificada constituem a herança e o cunho da portugalidade. No impulso da descoberta encontramos o espírito da expansão e a quimera do império. Nesta construção esteve sempre presente o interior. A sua gente encheu as naus, forneceu-lhe os meios de sobrevivência e nesse esforço em muito se firmou, ainda que efémera, a dinâmica destas localidades. Aqui nasceram homens e mulheres que levaram o nome da terra, à América, à África à Ásia. Lamego tem sido fértil neste contributo. Dos seus percursos e vivências falam os muitos objetos legados ou doados ao museu, fazendo deste o depositário das suas memórias, rastos da cultura dos lugares de onde provêm, pedaços da própria história desta região.

É neste contexto que destacamos no mês de maio uma miniatura em filigrana de prata representado uma casa típica de Lospalos – Timor-Leste.

UMA LULIK (Miniatura)
Lospalos (Timor-Leste)
Prata (filigrana), 2009
Oferta de Timorenses após a independência
de Timor-Leste ao General Mário Lemos Pires
Doação de Maria Theolinda Queiroz Lemos Pires
Museu de Lamego, Inv. 7777
Fotografia: DRCN/Museu de Lamego/José Pessoa

Ela inscreve-se em importante página da História. Oferecida pelo povo de Timo-Leste, aquando da sua independência, ao último Governador e Comandante-Chefe português – Major General Lemos Pires, que exerceu o cargo entre novembro de 1974 e abril de 1976, período particularmente difícil e conturbado no percurso dos dois países, marcados por acontecimentos, vicissitudes e confrontos em que as opções eram muitas vezes incompatíveis com o tempo e as condições circunstanciais.

Após o seu falecimento em 2009[2] a viúva, D. Maria Theolinda Queiroz Barrento Lemos Pires doa ao museu a obra timorense juntamente com a carta oficial de pesar assinada por Xanana Gusmão, primeiro ministro da República Democrática de Timor-Leste de então, em cerimónia pública realizada na instituição, em 9 de setembro de 2012.

CARTA DE CONDOLÊNCIAS
Kay Rala Xanana Gusmão (Primeiro Ministro de Timor-Leste)
Timor-Leste
Doação de Maria Theolinda Queiroz Lemos Pires, 2009
Museu de Lamego

A pequena peça configura uma casa típica da região de Lospalos[3], capital do distrito de Lautém, feita em filigrana[4] de prata. De planta quadrangular, desenvolvendo-se o alçado em três registos. No primeiro, um estilóbato sobre o qual assentam quatro pilares circulares que servem de elemento de sustentação ao segundo registo, com uma só divisória, constitui o corpo da habitação. A cobertura de quatro águas, de forma piramidal truncada é rematada por elementos semicircular e rectangulares sobrepujados por finos fios cilíndricos que lhe acentuam a verticalidade. Estes repetem-se em baixo rematados por quadrifólios, outros pendem do beiral rematados por pequenas esferas reforçando o caráter de grande plasticidade e leveza conferido pela filigrana. A casa assenta sobre uma base de madeira onde se fixa uma placa com a inscrição “Casa Típica de LOSPALOS / Oftª ao General / MÁRIO LEMOS PIRES / de Timorenses após a Independência.”

Reproduzindo a morfologia da habitação timorense ela transporta-nos para o seu habitat e modus vivendi, a sua estreita relação com o meio natural e a sua religiosidade. É na casa tradicional «Uma» “que radicam muitos dos mitos e origens lendárias do povo maubere, materializadas nas Uma Lulik – santuários onde se guardam as memória e artefactos sagrados, heranças e relíquias dos antepassados, onde só os anciãos katuas podem entrar. Aqui se celebra a genealogia da família e os seus cultos, como o tunu (matança de um animal que se ofertava aos espíritos invisíveis dos ancestrais). Apesar das particularidades que caracterizam e identificam cada etnia, a casa timorense apresenta uma linguagem e uma semiótica profundamente simbólica onde se evocam as crenças animistas segundo as quais o cosmos, de que a casa é uma miniatura, é composta de três partes: o céu, mundo dos espíritos, a terra, morada dos homens e o mundo subterrâneo, habitada por seres misteriosos potencialmente malfeitores A casa assume também um papel agregador da comunidade, representativo do espaço social onde coabitam os vivos e os mortos sem qualquer barreira ou linha de separação”[5] (Pessoa, 2015, 17-18)

Esta peça estabelece uma efetiva ponte com a expressão identitária da ourivesaria portuguesa – a filigrana, as suas origens e a síntese cultural e simbólica que representa. Com ela retemos a importância da cultura material, da sua preservação e valorização para a memória coletiva dos povos, como uma reserva fundamental de conhecimento e de valores, para o seu desenvolvimento e para uma interação solidária e construtiva entre todos, da qual o objeto é o fiel depositário.  

Selecionada em maio assume aqui particular relevância. Além da sua componente formal, estética e conteúdo intrínseco, expressa o elevado gesto do povo timorense e a relação de respeito e de cooperação entre Portugal e Timor-Leste.


[1] Relembramos o centenário da vigam de circum-navegação de Fernão de Magalhães que tomamos como mote para a seleção das peças do mês.

[2] O Major General Mário Lemos Pires nasceu em Lamego em 30 de Junho de 1930 e faleceu em Lisboa em 22 de Maio de 2009.

[3] Lospalos foi a terra natal do guerrilheiro independentista timorense Nino Konis Santana (1959-1998)

[4] Filigrana – FILUM (fio) / GRANUM (grão). Designa a arte de trabalhar metais, essencialmente o ouro, a prata ou bronze, a partir de fios entrelaçados.Remonta aos povos pré-romanos verificando-se uma evolução a partir do Séc. XVII sobretudo na criação de objetos de culto. Existem dois tipos: a filigrana de aplicação e a filigrana de integração.

[5] Pessoa, Georgina Pinto (2015)- Arquitectura tradicional timorense. In Memórias de Timor em Lamego. (Catálogo) Museu de Lamego/ Direção regional da Cultura Norte 16-19


Bibliografia

Almeida, António de (1994) – O Oriente de Expressão Portuguesa. Lisboa: Fundação Oriente, Centro de Estudos Orientais

Cinatti, Ruy Vaz Monteiro; Almeida, Leopoldo; Mendes Sousa (1987) – Arquitectura Timorense. Lisboa: Instituto de Investigação tropical / Museu de Etnologia.

Fernandes, Moisés Silva (2005) – O Processo de Descolonização no Timor Português. Lisboa: Universidade de Lisboa / Instituto de Ciências Sociais. Acedido em: Março – 2019. Disponível em: repositorio.ul.pt › Instituto de Ciências Sociais

Filigrana Portuguesa – Arte manual. Acedido em: Março – 2019 Disponível em: https://www.tradicaoportuguesa.pt/filigrana-portuguesa/

Kundisová, Júlia (2018) – Filigrana de Gondomar: o o percurso da arte tradicional gondomarense dos tempos remotos até à contemporaneidade. (dissertação de mestrado). Universidade do Minho. Instituto de Ciências Sociais. 60-78. Acedido: Março – 2019. Disponível em: http//repositorium.sdum.uminho.pt

Obra Timorense ao Museu de Lamego – e-cultura .pt, Centro Nacional de Cultura. Disponível em: https://www.e-cultura.sapo.pt//artigo/7288. Acedido em: Março – 2019

Peixoto, A. A. Da Rocha (1908) – As Filigranas. In Portugália. Separata do tomo II, fascículo 4º. Porto: Imprensa Portuguesa.