Ciclo de Fotografia do Museu de Lamego e Vale do Varosa | PROLONGAMENTO ATÉ 18 DE ABRIL DE 2020

As exposições “Três cidades de Marrocos. A partir das fotografias e livro de Vergílio Correia” [Museu de Lamego], “A circum-navegação na palma da mão” [Mosteiro de Santa Maria de Salzedas] e “Há ir e voltar” de Lucília Monteiro [Torre Fortificada de Ucanha], inseridas no Ciclo de Fotografia do Museu de Lamego e Vale do Varosa, com a curadoria de Manuela Matos Monteiro e João Lafuente, podem agora ser visitadas até 18 de abril de 2020. A entrada é gratuita.

“Três cidades de Marrocos. A partir das fotografias e livro de Vergílio Correia”

Inserida no ciclo de fotografia do Museu de Lamego e Vale do Varosa, a exposição Três Cidades de Marrocos evoca o livro com o mesmo nome de Vergílio Correia (1888-1944), resultante da viagem de estudo, que o investigador e historiador de arte realiza a Marrocos, em 1923, destinada a observar a influência mauritanense sobre arte portuguesa do começo do século XVI.

Em junho de 2019, os fotógrafos Manuela Matos Monteiro e João Lafuente revisitam Azamor, El Jadida (antiga Mazagão) e Safi, as três cidades marroquinas, para uma exposição que põe em relevo o diálogo entre as fotografias tiradas por Vergílio Correia durante a sua viagem e o registo contemporâneo dos dois fotógrafos, Embaixa­dores do Museu de Lamego e responsáveis pela curadoria das quatro exposições que integram a edição do ciclo de fotografia deste ano.

Figura ímpar da cultura portuguesa do século XX, nos domínios da história da arte, arqueologia e etnografia, Vergílio Correia deixou um legado imenso e incontornável. No ano em que se celebram os 500 anos da viagem da circum-navegação, sub­linham-se as facetas de viajante e fotógrafo do investigador, que nutria especial afeto por Lamego. Responsável por algumas das obras de maior referência e decisivas para a história da arte da cidade e região envolvente, por feliz coincidência, a obra Artistas de Lamego é publicada em 1923, no mesmo ano em que viaja a Marrocos, datando do ano seguinte livro que permitiu comprovar a autoria das pinturas que pertenceram à catedral de Lamego, Vasco Fernandes: Mestre do retábulo da Sé de Lamego (1924).

Vergílio Correia, que se considerava filho adoptivo de Lamego, onde aliás passava largas temporadas na quinta que possuía na Penajóia, era, nas décadas de 1920-40, uma pre­sença assídua no Museu de Lamego, a pretexto das suas pesqui­sas e da amizade que o unia ao antigo diretor do museu, João Amaral, que os levava a calcorrear juntos a região de lés-a-lés.

Museu de Lamego [de segunda a domingo, das 10h00 às 18h00]

 “A circum-navegação na palma da mão” | exposição coletiva de fotografia mobile

A tecnologia tornou o mundo progressivamente mais próximo encurtando distâncias geograficamente longínquas. O dis­tante misterioso tornou-se mais conhecido, mais vizinho, mais familiar. As tecnologias da comunicação trouxeram o planeta todo para dentro das nossas casas, tantas vezes em direto, e um acontecimento do outro lado do mundo passou a ser mais conhe­cido e próximo do que uma ocorrência na rua ao lado da nossa.

Os telemóveis e as redes sociais revolucionaram a forma como nos relacionamos uns com os outros tornando presentes ausências, tornando conhecidos os desconhecidos, criando no­vas formas de interação humana. Descobrimos que nos identi­ficamos com pessoas de outras culturas, de outras idades, com histórias de vida distintas das nossas, tecemos cumplicidades, aprendemos … Deixamos de estar confinados às oportunidades de interrelação do face-a-face físico porque, de modo virtual, escutamos, conversamos, debatemos, emocionamo-nos. Pas­sa a ser possível desenhar e desenvolver projetos comuns, par­tilhando saberes e modos de fazer, aferindo concretizações. Partilhamos causas, mobilizamos energias. Em vários senti­dos, podemos falar de uma experiência humana expandida.

Desde a sua fundação que as galerias MIRA, através do MIRA FORUM, compreenderam a importância da fotografia cap­tada e editada com dispositivos móveis e a valia da comunidade de fotógrafos mobile. Nas oito edições do concurso MIRA Mobile Prize que organizámos, recebemos mais de 50 000 fotografias e com elas recebemos o mundo: as ruas, as casas, os parques e jardins, as estradas, os cafés, os museus, as salas de aulas, fei­ras e mercados … lugares habitados pelos humanos, sozinhos ou acompanhados, em grupo ou entre multidões, a descansar, a tra­balhar, a brincar, a comer, a ler, a rezar, a dançar, a dormir… Nas imagens, intuímos verões e invernos, amanheceres e anoiteceres, riquezas e misérias, alegrias e tristezas, solidões e partilhas.

Por isso, faz todo o sentido integrar no Ciclo de Fotografia de Lamego e Vale do Varosa dedicado à viagem e, assim, evocan­do os 500 anos da circum-navegação, uma exposição de fotogra­fia mobile que reúne fotógrafos de todo o mundo que connosco partilham os seus lugares, os seus sentires, as suas vivências, os seus anseios. Podemos falar de um manifesto de humani­dade que o Mosteiro de Santa Maria de Salzedas tão bem acolhe.

Mosteiro de Santa Maria de Salzedas [de terça a domingo, das 10h00 às 13h00 e das 14h00 às 18h00]

“Há ir e voltar” de Lucília Monteiro

O título desta exposição, reminiscente de um mote criado pelo poeta Alexandre O’Neill nos anos 80, remete para um movimento, mas, neste contexto, de redefinição geográfica e social, de sobre­posição de camadas identitárias, que, em última instância, se re­flecte na paisagem, no lugar. Assim, este trabalho testemunha o es­treitamento entre a origem e o longínquo que ocorre duma complexa trama de afectos que ligam as pessoas aos sítios e os transformam em espaços psicológicos das suas vivências. O Tempo – a Viagem por excelência – aqui e agora capturado, manifesta, revela o rastro, o caminho, cobre-o, desvela-o, orienta-o em relação a um ponto de partida ou de chegada. Cá, de onde partimos, cá, onde voltamos.

Assim, os protagonistas desta história são duas gerações de emigrantes – o passado, o presente – e os lugares aos quais se referenciam: onde deixaram, para onde trouxeram, onde reinven­taram fronteiras entre países nas suas rotinas diárias.

Em Britiande nasceram Arlete – carinhosamente tratada por Mariquita pelas filhas – e Manuel, um casal que partiu para França logo após o casamento, no ano de 1963. A vida em França não foi fácil, especialmente devido à Língua, mas a prioridade de educar as filhas e a vontade de mais tarde montar pedra em terre­no sólido na zona de Lamego, foram motivos suficientes para que o tempo corresse ao ritmo dos objectivos traçados. As mãos de fada de Mariquita que Britiande viu crescer, permitiram-lhe grandes feitos: o seu vestido de noiva e o sucesso nas limpezas em Paris. Detentora de um brio e bom gosto incomparáveis, Mariquita continua a dar vida à sua França – que é diferente da das filhas e dos netos – no seu cantinho em Portugal. Aos 78 anos, com as mãos de fada que nunca perdeu pelo caminho, cuida do seu jardim, um mimo de flores e de inspiração que re-imagina o jardim francês clássico no melhor que a nostalgia floral tem para dar.

Em Tarouca, há vinte e dois anos atrás, nasceu Aurora Melo Moura. Este acontecimento poderia ser mais um entre dezenas, não fosse Aurora uma fervorosa defensora de ideias que podem alterar o curso da Humanidade: a igualdade entre homens e mulheres, a defesa da Natureza e do Clima, a resolução da crise dos refugiados. Aurora passou a maior parte da vida na Suíça, para onde se mudou com dois anos de idade e concluiu os seus estudos em Economia e Direito em Zurique. O seu namorado é suíço, os amigos também, mas os avós são portugueses e Aurora gosta de voltar ao local onde a gastronomia e a riqueza de património são motivo de orgulho para a jovem que ocupa a Direcção de um parti­do político na cidade onde mora. As viagens que faz entre Portugal e Suíça e o que vive em cada um destes locais, permite-lhe afir­mar que a Suíça é um país rico, mas que carece de uma estrutura igualitária que sustente uma sociedade mais justa em termos de género; Portugal tem menos dinheiro, mas tem uma maior con­sideração pelas questões relativas aos Direitos Humanos. Todos os anos, na época de férias, Aurora ruma ao seu país de origem. Todos os anos, após as férias, Aurora regressa à cidade onde habi­ta na Suíça. E nos entretantos, é bem possível que consiga mudar o Mundo.

Torre Fortificada de Ucanha [de terça a domingo, das 10h00 às 13h00 e das 14h00 às 18h00]