ESPECIEIRO em destaque no mês de outubro

O mundo em que vivemos procede de uma síntese universal de elementos orientais e ocidentais, resultando, sobretudo da combinação de invenções chinesas inextrincavelmente ligadas a criações europeias”[1]

ESPECIEIRO
Autor: HW (Hone Woe)
Hong-Kong / Cantão
Prata fundida, cinzelada, relevada, incisa e dourada
Dim.: C. 14,5 cm; P. 158 g.
Séc. XIX /XX (1895 – 1905)
Doação Humberto Leitão (1972)
Museu de Lamego, Inv. 1757  
Créditos Fotográficos: José Pessoa
Direção-Geral do Património Cultural / Arquivo de Documentação Fotográfica (DGPC/ADF)

Um breve olhar sobre o objeto selecionado para a viagem que propomos no mês de outubro – um porta especiarias triplo – remete-nos para essa realidade apontada por Desroches, tão nossa e atual, construída na complementaridade de multiplicidades e de sínteses. A sua estrutura formal desenvolve-se a partir da representação de um monociclo puxado por figura masculina – “culi”, que os traços fisionómicos e traje remetem para origem oriental. Sobre a base do veículo, em forma de lira, assenta uma escada, posicionando-se atrás um polvilhador cónico com tampa perfurada. A disposição das nervuras incisas sugerem as folhas de um legume. À frente, dos lados, dispõem-se os outros dois recipientes. Um com alma de vidro e forma cilíndrica, gomada assemelha-se a um fruto. A tampa, articulada, é rematada por decorativa pega constituída por pequeno pedúnculo e folhas. O outro tem a forma de flor cujas pétalas se abrem para conter mais um condimento. Feito em prata, por ourives que se identifica pelas inicias HW, registado em Hong-Kong em 1846, com marca da contrastaria de oficina de Cantão em caracteres kaishu. Cantão foi o grande recetáculo de mercadores e mercadorias, ponte entre Ocidente e Oriente, que legitima as atividades comerciais, com a qual se assina o primeiro tratado sino-português em 1554, que abrirá portas a Macau três anos depois. “Tem esta cidade um arrabalde de maior povoação que a cerca, e estende-se ao longo do rio […] há gente sem conto, fidalgos a que chamam mandarins… mercadores e oficiais mecânicos. E vendem-se aqui coisas tão lindas que é coisa de espanto…” (Castanheda, 1551-1554)[2]. Rica em jazidas, a China preferia preservá-las, usando o metal vindo de fora, como refere Román (Macau, 1584) “Existem muitas minas de prata nestas colinas em volta de Macau e todas as ilhas de Cantão têm veios conhecidos. O rei não permite a sua exploração, para que as pessoas não esqueçam a agricultura e o comercio….A prata que vem de fora é muita…”[3]

Esta peça integra a doação Humberto Leitão[4], (1972) constituída por vários objetos de natureza diversa, testemunham o seu desempenho profissional no exercício da carreira militar e o gosto pela cultura oriental, que a sua obra evidencia. Como na de seus contemporâneos como Armando Martins, Ferreira de Castro, Ruy Cinatti… Este fascínio é particularmente marcante e assumido pelas gerações de Oitocentos, tão presente na produção literária e percursos de vida de Wenceslau de Moraes[5], Camilo Pessanha[6], Antero de Quental ou Eça de Queirós, entre outros. Tem raízes profundas, que emergem nos registos in situ e nas obras de vários autores coevos, ao longo dos séculos XVI, XVII e XVIII. Neste diálogo entre Oriente e Ocidente inscrevem-se algumas vanguardas da ciência, à literatura e à arte que hão-de marcar a contemporaneidade, onde o conhecimento é o primeiro impulso. Todavia, este caminho carreia um vetor imperialista, aqui predominantemente económico, que se estrutura desde o século XV com a política expansionista e se afirma a partir de Quinhentos com a penetração no mundo asiático e o estabelecimento da carreira da Índia. “As naus da carreira da Índia levavam para Goa sobretudo soldados e dinheiro em prata, […] Em geral não iam muito carregados […] Por outro lado, a carga no regresso compreendia grandes carregamentos de pimenta, especiarias, nitratos, anil, madeiras duras, mobílias, porcelanas chinesas, sedas e peças de algodão indiano …” Boxer, (2011, p.215.)

Lisboa, a grande metrópole, onde tudo aflui, descrita na Miscelânea de Resende :“[…] ouro, prata, brocados/de mil feições, muy fermosos/entre talhos e borlados/ muytos e sotis e chapdos, muy ricos e pouco custosos:/ ricas sedas de mil fortes,/ alcatifas, chamelotes/ porcelanas, beijoins,/sinabafos, rambotijs/ delgatissimos e fortes./ Muytos damascos da China/ cofres de rede dourados,/ mesas lectos marchetados,/ e muy rica prata fina / de bestiaes bem lauradosa: / e quanto aljôfar tem,/ quanta seda de lá vem?/ que policias tam polidas?/ que riquezas, cousas sabidas,/ que antes no soube ninguém?”[7] (D’Intino, 1992, p 64). Estes luxuosos produtos alimentaram fortunas e quimeras, ornaram espaços privados e públicos, vestiram o gosto de nobres e burgueses, tratam-lhe dos males do corpo, temperaram-lhe a mesa com os exóticos e picantes sabores do cravinho, da canela, da noz-moscada, do gengibre, do açafrão, da pimenta… por eles se sulcaram os mares, se desbravaram rotas, se perderam vidas…com grãos de pimenta se resgatou Roma do cerco bárbaro[8], se encheram farnéis de cruzados, se pagaram bens e serviços. O comércio das especiarias, monopólio da coroa, regulamentado pela Casa da Índia, sucumbiria à feroz concorrência e pressões de ingleses, franceses e holandeses, quebrando os pés de barro do império português, pautado por uma política de transporte em que Portugal se endividou. Mas onde, apesar de tudo, escreveu na história um papel de charneira, que conduziria o Ocidente a uma nova época.

Conduzidos pelos objetos do museu, ladeamos a aventura do navegador, numa proposta outonal, onde os ocres da paisagem se combinam com a paleta das especiarias e os sabores se impregnam de odores, convidando a um momento de intimidade com o objeto, de compreensão do seu contexto, percurso e da sua relação connosco próprios.


[1] Desroches, Jean-Paul (1992) – In: Vários – Do Tejo aos Mares da China. Uma epopeia portuguesa. Paris, Éditions de la Réunion des Musées Nationoux. p 13

[2] Castanheda, Fernão Lopes (1551-1554) – História do Descobrimento e Conquista da Índia pelos Portugueses: Livro IV. In: Visões da China na Literatura Ibérica dos séculos XVI e XVII. Antologia Documetal. Revista Cultural nº 31 (II série), Abril 7 Junho, I.C.M., Macau, 1997, p 48.

[3] Ronám, Juan Bautista – Relação das Coisas da China. In “Archivo General de Índia”, Sevilha, Filipinas ,29 (manuscrito). Transcrição parcial. Ob. Cit., p.105

[4] Humberto José dos Santos Leitão (1885- 1973) – Desenvolveu parte da sua actividade no Oriente como oficial da marinha. Atingiu o posto de Capitão de mar-e-guerra em 1940. Consagrou muito do seu tempo ao estudo da náutica e da marinha e ao estudo da presença portuguesa no oriente, particularmente em Timor, do qual foi Governador.

[5]  Venceslau José de Sousa de Morais (1854-1929) escritor e militar da marinha Portuguesa.

[6] Camilo de Almeida Pessanha (1867-1926) Poeta português, cursou direito, tendo exercido funções judiciais em Macau

[7] Resende, Garcia – Crónica de D. João II e Miscelânea. In-CM, Lisboa, 1973, pp 344-45. Cit.  D’Intino, Raffaella (1992) – A Descoberta da China. A Aventura Portuguesa. In Vários – Do Tejo aos mares da China. Uma epopeia portuguesa. Paris, Èditions de la Réunion des Musées Nationaux,. p. 53-65

[8] Em 408

Bibliografia

Boxer, C. R. (2011) – O Império Marítimo Português. 1415-1825. Lisboa, ed. 70, Lda.

Desroches, Jean-Paul (1992) – In: Vários – Do Tejo aos Mares da China. Uma epopeia portuguesa. Paris, Éditions de la Réunion des Musées Nationoux. p. 13

D’Intino, Raffaella (1992) – A Descoberta da China. A Aventura Portuguesa. In Vários – Do Tejo aos mares da China. Uma epopeia portuguesa. Paris, Èditions de la Réunion des Musées Nationaux,. p. 53-65

Falcão, Alexandra Isabel (2015) – O exótico como possibilidade da memória coletiva. In Almeida, Isabel Cruz; Neto, Maria João (eds.) – SPHERA MUNDI. Arte e cultura no tempo dos descobrimentos. Portugal, ed. Caleidoscópio. p. 323 – 333

Laranjo, F. J. Cordeiro (1993) – Vultos e Ruas de Lamego. Lamego, ed. Câmara Municipal de Lamego

George Bryan de Souza (1991) – A Sobrevivência do Império: Os Portugueses na China (1630-1754). Lisboa, ed. D. Quixote.

Monteiro, Anabela Nunes (2011) – Macau e a presença portuguesa seiscentista no mar da China. Interesses e estratégias de sobrevivência. Tese de Doutoramento apresentada à Universidade de Coimbra. 2011 Disponível em: https://eg.uc.pt/…/Tese%20de%20Doutoramento_Macau  Acedido em Junho, 2019

Matos, Artur Teodoro (Coord.) (2019) – Homenagem aos Fundadores da Academia de Marinha. Lisboa, Ed. Academia de Marinha. P. 131 -151 Disponível em: https://academia.marinha.pt/pt/academiademarinha/Edie. Acedido em Junho, 2019

Massa, Vítor (Dir.) – Ardínia. Lamego, ed. Câmara Municipal de Lamego. Set. 1999, p.48

Normas de ourivesaria. (2011). Lisboa, ed. Instituto dos Museus e da Conservação. IP Disponível:http://www.matriznet.dgpc.pt/MatrizNet/Download/Normas/NI_Arte_Ourivesaria.pdf Acedido em Julho, 2019

Reis, Mário Beirão (1977) – Ourivesaria Civil Indo-Portuguesa. N.p. Lisboa

Vários (1997) – Visões da China na Literatura Ibérica dos Séculos XVI e XVII. Antologia Documental. Macau, ed. Instituto Cultural de Macau, Revista de Cultural, Nº 31 (II Série), Abril/Junho

Georgina Pessoa | outubro 2019