Jarra

China (Jingdezhen?)

Reinado de Kangxi, 1662-1680

Porcelana. Vidrado e esmaltes da “família verde”

Marca: folha de artemísia

Proveniência: doação do Comandante Humberto Leitão

Inv. 1726

A coleção de aproximadamente cem peças de porcelana chinesa oferecidas pelo Comandante Humberto Leitão, ao Museu de Lamego, entre as décadas de 50 e 70 do século XX, é um bom exemplo do fascínio e da permanência de gosto que tem acompanhado os portugueses, desde os primeiros contactos com o Oriente, pelas louças e outros produtos exóticos e do lugar central que ocuparam no seio de coleções privadas constituídas no espírito romântico de Oitocentos. Humberto José dos Santos Leitão nasceu em Lamego em 1885, mas uma fulgurante carreira na Marinha conduziu a que a maior parte da sua vida fosse passada no Oriente, onde por duas vezes chegou a ocupar o cargo de Governador de Timor. Homem culto e refinado, autor de diversos estudos sobre náutica e sobre o papel dos portugueses no Oriente, deixaria maravilhar-se pelo brilho, beleza e sofisticação das porcelanas da China, onde iniciou uma interessante coleção que viria a complementar, depois do seu regresso a Portugal, com peças adquiridas em leilões de arte. O presente exemplar foi executado numa porcelana branca, pesada e espessa, decorada com esmaltes da “família verde” onde predominam, como o nome indica, vários tons de verde combinados com azul, amarelo, vermelho ferro, beringela e preto. A decoração, que se desenvolve por toda a superfície vidrada, com um nível de detalhe e delicadeza assinaláveis, inclui quatro painéis, um por cada uma das faces do bojo, reproduzindo cenas de interior e exterior, baseadas certamente em fontes literárias, com generais, oficiais, senhoras e criadas, entre paisagens com flores variadas, montanhas rochosas, árvores, aves, pavilhões e objetos de valor simbólico. As porcelanas deste tipo foram produzidas durante o reinado do Imperador Kangxi (1662-1722), responsável pela recuperação do tradicional sistema de fábricas imperiais e pela revitalização da produção de porcelana em larga escala, depois de um período de grande escassez devido à destruição dos fornos da cidade de Jingdezhen (1674-1675) durante a guerra. A presença de uma folha de artemísia pintada na base da jarra, em lugar da tradicional marca do reinado, em carateres “kaishu”, que permite a identificação da data em que o objeto é feito, informa-nos sobre a proibição de uso da marca imperial em peças produzidas em fornos privados, que ocorreu nos primeiros anos do reinado de Kangxi até cerca de 1680.