Lamelofones em destaque na rubrica “PEÇA DO MÊS”

Sob Gibraltar, ao alcance de um olhar. Entre as águas do Atlântico e do Índico, recorta-se o velho continente, berço e ponte da caminhada humana, condições guardadas na policromia da sua imensidão. Nas frondosas regiões equatoriais, nas áridas zonas do Norte ou do Sul, nas intercalares zonas de savana, exibe-se a diversidade geográfica étnica, cultural e linguística de África. Das influências árabes e orientais mais vincadas a norte e África Oriental, às especificidades da África negra, caldeiam-se permutas inter-culturais e permanências ainda tão vivas no seu quotidiano, como o testemunham o conjunto de lamelofones escolhidos como “peça do mês” de novembro.

Lamelofone com corpo em forma de tábua de 10 lamelas
Base sonora de forma retangular, em madeira
Apresenta na face superior um conjunto de 8 lamelas de ferro, dispostas em V, assentes sobre dois cavaletes, o superior esculpido no suporte e o inferior em placa de ferro em forma de U. Travessão de aperto das lamelas, em ferro, cravado nas extremidades lateiras da tábua, fixo através de arame que passa nos intervalos das lamelas. Topo inferior com vareta de ferro onde estão inseridos dois anéis de metal que servem de soalhas. Topo superior com orifício para passagem de cordão de suspensão do instrumento.
Ausência de decoração.  
Madeira, metal. Orifício sonoro a meio a meio da sua secção.
Dim. Alt.: 3,5 cm; Larg.: 10,5 cm; Comp. 18,7 cm
Local: Sudoeste de Angola
Séc. XX
Oferta de Joaquim Valadares
Museu de Lamego: Depósito do Liceu Latino Coelho
Inv. DEP64ET
Lamelofone “cisanji”
Base sonora de forma retangular, em madeira
Apresenta na face superior um conjunto de 8 lamelas de ferro, dispostas em V, assentes sobre dois cavaletes. travessão de aperto das lamelas de ferro. Topo inferior com vareta de ferro onde estão inseridos dois anéis de metal que servem de soalhas.
Decoração incisa na face superior com duas máscaras Quiocas.  
Madeira, metal. Orifício sonoro a meio a meio da sua secção.
Dim. Alt.: 5 cm; Larg.: 11,5 cm; Comp. 22,5 cm
Local: Angola, grupo cultural Quioco
Oferta do capitão Francisco Duarte
Museu de Lamego: Depósito do Liceu Latino Coelho
Inv. DEP65 ET  
Lamelofone do tipo Lugandu
Base sonora de forma retangular, em madeira
Apresenta na face superior um conjunto de 11 lamelas de ferro (originalmente teria mais 3), sobrepostas em duas series, assentes sobre dois cavaletes, travessão de aperto
das lamelas em ferro.
Decoração incisa com motivos geométricos. Orifício sonoro a meio a meio da sua seção.  
Madeira, metal
Dim. Alt.: 4,2 cm; Larg.: 10,6 cm; Comp. 20,5 cm
Local: Angola, Benguela
Oferta do capitão Francisco Duarte
Museu de Lamego: Depósito do Liceu Latino Coelho
Inv. DEP66 ET
Lamelofone do tipo Lugandu
Base sonora de forma retangular, em madeira. Apresenta
na face superior um conjunto de 12 lamelas de ferro (originalmente teria mais 3), sobrepostas em duas series, assentes sobre dois cavaletes, travessão de aperto
das lamelas em ferro.
Decoração incisa com motivos geométricos enqudrando uma cabeça humana estilizada. Orifício sonoro a meio da sua seção.  
Madeira, metal
Dim. Alt.: 4,3 cm; Larg.: 14 cm; Comp. 25 cm
Local: Angola
Oferta do capitão Francisco Duarte
Museu de Lamego: Depósito do Liceu Latino Coelho
Inv. DEP67 ET
Lamelofone
Base sonora de forma retangular, em madeira
Apresenta na face superior um conjunto de 9 lamelas de ferro, dispostas em V, assentes sobre dois cavaletes, travessão de aperto das lamelas em ferro
Decoração incisa com motivos geométricos.
Madeira, metal
Dim. Alt.: 4cm; Larg.: 12,5 cm; Comp. 26,2 cm
Local: Angola
Oferta do capitão Artur Ribeiro
Museu de Lamego: Depósito do Liceu Latino Coelho
Inv. DEP68 ET  
Lamelofone do tipo Mucapata
Base sonora de forma retangular, ligeiramente côncava em madeira, escavada no interior. Apresenta na face superior um conjunto de 20 lamelas de ferro assentes sobre dois cavaletes, travessão de aperto das lamelas em ferro.
Decoração incisa com motivos geométricos
Madeira, metal  
Dim. Alt.: 7 cm; Larg.: 19,3 cm; Comp. 22 cm
Local: Angola
Doador não identificado
Museu de Lamego: Depósito do Liceu Latino Coelho
Inv. DEP69 ET
Lamelofone do tipo Lugandu
Base sonora de forma retangular, em madeira. Apresenta
na face superior um conjunto de 11 lamelas de ferro (originalmente teria mais 2 ou 3), sobrepostas em duas series, assentes sobre dois cavaletes, travessão de aperto
das lamelas em ferro.
Decoração incisa com motivos geométricos, enquadrando uma cabeça humana estilizada. Orifício sonoro a meio da sua secção.
Madeira, metal
Dim. Alt.: 4 cm; Larg.: 12 cm; Comp. 21,5 cm
Local: Angola
Oferta de Albano Carvalho Sardoeira
Museu de Lamego: Depósito do Liceu Latino Coelho
Inv. DEP70 ET
Lamelofone do tipo Mucapata
Base sonora de forma retangular, em madeira, escavada no interior. Apresenta na face superior um conjunto de 23 lamelas de ferro assentes sobre dois cavaletes, travessão de aperto das lamelas em ferro.
Decoração incisa com motivos geométricos.
No topo inferior, vareta de ferro com as pontas cravadas na madeira, onde giram 6 anéis de metal que servem de soalhas.
Madeira, metal  
Dim. Alt.: 6,5  cm; Larg.: 18,5 cm; Comp. 23 cm
Local: Angola
Doador não identificado
Museu de Lamego: Depósito do Liceu Latino Coelho
Inv. DEP71 ET

Na viagem que fazemos, já sem o navegador, mas ainda assim de regresso a casa. Fazem parte da coleção de arte africana do Liceu Latino Coelho, Lamego, em depósito neste museu desde 1980. Instrumentos musicais, integrados na tipologia dos ideofones[1] dedilhados, muitas vezes designados como “piano do polgar”, difundem-se ao longo da África subsahariana, apresentando múltiplas características organológicas resultantes de vários processos tecnológicos, sociais e materiais. Aspeto relevante nestes objetos é o seu papel no âmbito da cultura material onde se inserem. “São testemunhos das múltiplas vias da criatividade humana, a luta pela sobrevivência de uma nova invenção e a sua adaptação geral, bem como o seu declínio e desaparecimento.” (Kubik, 2002, 18,19). De assinalável ancestralidade[2], em estreita relação com o meio, encontram na natureza os elementos materiais para a sua construção, talhados e executados pelas mãos do artesão, que sábia e engenhosamente domina o mivanze[3] e a bigorna, que com o mesmo ardil adapta as hastes[4], soalhas e caricas levadas pelos colonizadores.

A obra do dominicano João Santos[5] transporta-nos num registo pormenorizado para as remotas sociedades da África Oriental do século XVI, sendo suas as primeiras descrições destas peças. “Outro instrumento musico tem estes cafres, quasi como este que tenho dito, mas e todo de ferro, a que também chamam ambira, o qual em lugar de cabaços tem umas vergas de ferro espalmadas e delgadas, de comprimento de um palmo, temperadas no fogo de tal maneira que cada uma tem voz differente. Estas vergas são nove somente e todas em carreira, e chegadas umas as outras, pregadas com as pontas em um pau, como um cavalete de viola, e d’ali se vão dobrando sobre um vão que tem o mesmo pau ao modo de uma escudela, sobre o qual ficam as outras pontas no ar. Estes, tangem os cafres tocando-lhe n’estas pontas que tem no ar, com as unhas dos dedos pollegares, que para isso trazem crescidas e compridas e tão ligeiramente as tocam, como faz um bom tangedor de tecla em um cravo.” (Santos, 1891.74,75)

Genericamente apresentam estrutura em madeira e lamelas em metal ou ráfia, estas variáveis em número e na disposição das notas. Distribuem-se na face superior de acordo com a respetiva notação, sustentadas por dois cavaletes (inferior e superior) e um travessão de aperto das lamelas, normalmente colocado a meio. O conjunto que se salienta integra peças com nove a vinte e três lamelas, igualmente em ferro. A existência ou não de ressonador constitui importante elemento de diferenciação. Pautam-se estes, também, pela diversidade. Habitualmente ornados nas faces com elementos incisos e relevados de configuração geometrizada ou com figuração humana estilizada, de uma ou mais faces, por vezes inscritas de forma invertida, como acontece num exemplar desta coleção, que apresenta ao centro duas máscaras, representações características dos Cokwe. Kalimba, sanza, likembe, cisanji, mucapata, gongoma e mbira, designações atribuídas conforme a região e grupo étnico, contem em si valiosas informações sobre os conceitos que lhe estão associados, confirmando a língua como um organismo vivo, portador da história, da identidade e da espiritualidade de um povo. “Em Angola os tocadores […] de cisanji, gozam de uma posição privilegiada […] tocam porque o dom lhe foi transmitido pelos seus ancestrais […] cantam o real e o imaginário, o bom e o mau, o amor e o ódio as inovações e as mutações […] o que lhes toca na alma.”[6] (Kubik, 2002, 24). Com uma musicalidade profundamente rítmica, transmitida oral e auditivamente, a sua prática caracteriza-se pelo recurso a técnicas interpretativas e de alternância, pelo improviso e construção de variações sobre a melodia que se interpreta. Fazem parte da vida familiar e social, indissociáveis da dança. Os movimentos “policêntricos” da dança encontram idênticos padrões cinéticos no dedilhar das cordas ou das lamelas. “feitos para produzir musica, existem nos museus, quase sempre, sem voz, desligados dos corpos que lhe trazem a sonoridade e os seus múltiplos sentidos. É este aparente paradoxo que contribui para que os instrumentos musicais, ao serem expostos, sejam sobretudo valorizados pela sua vertente estética ou pela avaliação organológica que deles é feita, e não como fonte sonora e meio de expressão indissociável da musica que produzem.” (Brito, 2002, 9). Saliente-se o trabalho de campo realizado por Gerhard Kubik e pela equipa do Museu Nacional de Etnologia, para o estudo da respetiva coleção, os estudos pioneiros de Margot Dias, entre os Maconde, ou de Paul Berliner sobre a musica tradicional africana, para a compreensão destes objetos e da cultura africana com tão fortes influências na atualidade.

A alternância e a cadência com que se harmonizam sons e silêncios, elementos primordiais do meio que coabitam, inscreveram nos sentidos, na sensibilidade e na memória dos africanos o ritmo de uma batida ancestral com que se foi alinhando o pulsar do quotidiano, fazendo de cada momento um ato criativo.

O cruzamento de rotas, interesses e rivalidades impuseram-lhe a escravatura, o colonialismo e a guerra, sulcaram-lhe encruzilhadas e desnortes e nos caminhos percorridos pela diáspora foram criando as raízes de novas expressões musicais como sou, ou o jazz, a salsa ou o samba. Em África, a “ arte das musas” nos sons de tambores e marimbas, a terra manteve-lhe os cheiros e as cores, intensas, únicas com que se pinta o céu em cada sol-pôr.


[1] Ideofones constituem um vasto grupo de instrumentos musicais em que não existe separação entre a estrutura, o gerador do som e a caixa de ressonância. O som é produzido pelas vibrações do próprio material quando percutido, beliscado, friccionado ou soprado.

[2]  Tal como se conhecem na atualidade, a sua produção deve situar-se no âmbito da tecnologia do “Later Iron Age”, cerca dos séculos XI e XII.

[3] Foles com que o forjador molda as lamelas de metal

[4] Hastes de guarda-chuvas.

[5] Frei João Santos (1570 ? – 1625 ?), Homem atento e de amplo saber, autor da obra Etiópia Oriental e Vária História de Cousas Notáveis do Oriente,chegou a Sofala em 1586, permanecendo na região até  embarcar para Goa em 1595

[6] Afirma Marcelina Gomes, angolana que integrou o estudo da coleção de lamelofones do Museu Nacional de Etnologia

Bibliografia

Berliner, Paul F. (1978) – The Soul of Mbira: Music and Traditions of the Shona People of Zimbabwe. Berkeley, University of California Press. Reprinted Chicago: University of Chicago Press, 1991

Brito, Joaquim Pais de (2002) – Apresentação. In Lamelofones do Museu Nacional de Etnologia. Lisboa: Museu Nacional de Etnologia / Instituto Português de Museus / Ministério da Cultura, p.9-11

DIAS, Margot (1986) –  Instrumentos Musicais de Moçambique. Lisboa: Instituto de Investigação Científica Tropical, Centro de Antropologia Cultural, In: Geographica: revista da Sociedade de Geografia de Lisboa / direcção de Raquel Soeiro de Brito. – Ano II, n.º 6 (Abril 1966), p. 2-17

Kubik, Gerhard (2002) – Considerações gerais. In Lamelofones do Museu Nacional de Etnologia. Lisboa: Museu Nacional de Etnologia / Instituto Português de Museus / Ministério da Cultura, p.15-30

Pereira, Rui Mateus (2005) – CONHECER PARA DOMINAR. O Desenvolvimento do Conhecimento Antropológico na Politica Colonial Portuguesa em Moçambique, 1926-1959. Dissertação (Doutoramento) em Antropologia, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. 2 vol. Disponível em: https://run.unl.pt/bitstream/10362/15677/2/tese_vol2.pdf Acedido em: Agosto de 2019

Post, Jennifer C. (2015) – Reviewing, reconstructing and reinterpreting ethnographic data on musical instruments in archives and museums Disponível em: https://ses.library.usyd.edu.au/bitstream/…/Chapter6.pd.. Acedido em: Agosto de 2019

Santos, Frei João (1609) – Ethiopia Oriental. Vol I. Bibliotheca de Clássicos Portugueses. Lisboa: 1891 Disponível em: http://purl.pt/26732/3/hg-17585-p Acedido em: Julho de 2019

Georgina Pessoa | novembro 2019