LEQUES em destaque na “Peça do Mês”

“É de viagem que se fala. Porque as culturas viajam como os homens e com os homens que as produzem: […] de regresso a casa, inscrevem memórias indeléveis nos seus hábitos, sem imaginarem as que elas próprias deixaram pelo caminho”[1]

De regresso a casa, finda a viagem encetada em janeiro em tributo a Fernão de Magalhães. Deixámo-nos levar pelos objetos do acervo do museu, numa aventura de descoberta partilhada. Com eles aproximámo-nos desse Oriente outrora tão longínquo e enigmático. Experienciado na intimidade por marinheiros, missionários e mercadores, navegadores de todos os oceanos, nesse apelo plural dos sentidos, de registos e vivências onde se advinha a emergência de voltar. Uma saudade sentida no feminino, colo e leito, sentimentos antigos com múltiplos caminhos.

Encontramos na coleção de leques do museu, uma subtil ponte nesta aventura. Materiais, técnicas, ornamentos, contextos …. o objeto pronto para falar de si. Constituída por nove peças encontra-se em reserva. De data e proveniência incerta, sem autor, local de produção ou historial anotado nas fichas monográficas, apenas dois dispõem de processo de entrada com referência às doadoras[2]. É na sua materialidade que a maioria nos remete para a sua origem: a madeira, a seda, o marfim, as plumas… Estas peças destinadas a fazer circular o ar, refrescando e protegendo o seu utilizador[3], apresentam-se em diversos materiais, formas e técnicas. Abanos, ventarolas, leques, certamente remota a sua origem. As folhas de palmeira ou as plumas das aves, usadas desde as civilizações pré-clássicas, podem ser os seus precursores. É conhecida a sua utilização milenar na China, na Grécia ou em Roma. Estão presentes no imaginário do mito e da lenda. Da asa de Zéfiro[4], furtada por Eros[5] para refrescar a sua amada Psique à máscara de Kan-Si, filha de um poderoso mandarim, que durante uma festa, incomodada com o calor, decide usá-la para se esfriar, sendo seguida pelas outras jovens. A visão japonesa alude à observação e mestria de um artesão, que no século VII, inspirado pelo movimento das asas de um morcego, criou o primeiro leque articulado. O contacto dos portugueses, com o seu uso no Oriente, está presente em descrições como a que Tomé Pires faz das mulheres orientais “As mulheres parecem castelhanas. Têm saias de refegos e coses, e sainhos mais compridos que em nossa terra. [tem] os cabelos compridos, enrodilhados por genti maneira em cima da cabeça, e lançam neles muitos pregos de ouro para os ter, e ao redor de pedraria, quem a tem, e sobre a moleira. [Usam] jóias de ouro nas orelhas e pescoço. Põem muito alvaide nas faces e arrebique sobre ele. E são alcaforadas, que Sevilha lhes não leva a vantagem, e bebem como mulheres de terra fria. Trazem sapatos de pontilha de seda e brocados. Trazem todas abanos nas mãos. São da nossa alvura e [algumas] delas têm os olhos pequenos e outras grandes. E [tem] narizes como hão-de ser. ” (Pires, 1515,20)[6].Trazidos para a Europa no século XVI[7], o seu uso divulga-se e generaliza-se no XVII, afirmando-se nos XVIII e XIX[8]. Usados na Ásia por homens e mulheres, símbolos de elegância, riqueza e poder, produzidos por qualificados artífices nos mais nobres e delicados materiais, virão a ser objeto de simbólicos presentes e a alimentar um profícuo comércio com o Ocidente, para os quais se produzem em grande quantidade, a baixos preços,[9] muitos sem decoração, posteriormente dada ao gosto europeu nas oficinas dos melhores éventaillistes. Destaque para o desempenho das manufaturas inglesas, italianas, holandesas e particularmente francesas, tendo em Versalhes o expoente do seu reconhecimento e uso, onde o leque foi um elemento identificador, imprescindível à mulher e à moda. Ideia expressa por Germaine Stäel[10]Há tantos modos de se servir de um leque, que se pode distinguir, logo à primeira vista, uma princesa de uma condessa, uma marquesa de uma roturière. Aliás uma dama sem leque é como um nobre sem espada.[11]. Onde provavelmente teve origem a complexa “linguagem do leque”, código ao serviço de amores secretos, ou a aplicação de espelhos para os olhares indiscretos, nesses jogos tão ao gosto das práticas e da mentalidade barroca. Para no final de Oitocentos se tornarem preferenciais souvenirs ou suportes publicitários.

Diversificados, como o atestam estes exemplares, podemos enquadrá-los em duas tipologias[12]: os leques plissados, compostos por uma estrutura – a armação, constituída pelas varetas, as exteriores mais resistentes e ornamentadas – as guardas, e uma folha plissada, em pele, têxtil, papel ou renda. Esta é a parte que recebe a maioria dos ornamentos, bordados, pinturas, gravuras, lantejoulas… E os leques brisé constituídos apenas por varetas e guardas, unidas nas extremidades inferiores por um rebite e nas superiores por um fitilho que regula a sua abertura. A este tipo de leques podem ser aplicadas, nos topos, plumas ou outros elementos em papel ou outro material. Surgem também, nas duas tipologias, leques cujas varetas centrais são mais longas que as laterais, habitualmente designados de tipo Fontange[13]. “Profusamente utilizado em Setecentos e Oitocentos, com características próprias aos diversos estilos decorativos, o leque ganha em 1900 uma configuração inusitada. Imensos e aparatosos […] preferidos para as grandes ocasiões o marfim, a madrepérola e a tartaruga com que manufaturavam as varetas. A utilização das plumas de avestruz constituiu uma novidade da Belle Epoque, […] aparato da toilette de cerimónia usada para as solenidades […]” Teixeira, 2000, 346).

Solene como a partida. Abrimos o melhor leque, cortesia a Elcano. No porto de Sevilha “Cosa es de admiracion, y no vista en outro Puerto […] Oro, y Plata en Barras desde Gualdalquivir hasta la Real Casa de la Contratacion de las Índias […] Cosa es maravillosa de la gran riqueza de muchas calles de Sevilha” (Morgado, 1587, 166-168). No movimento do leque, fluir intemporal e elo, o objeto, arquivo de mil viagens.

Leque brisé com varetas de madeira
encimadas por plumas de avestruz
Dim.: 42 x 68 cm
C. 1890-1930
Doação de Maria Isabel Raposo Osório
Museu de Lamego, Inv. 1221
Leque plissado de folha dupla em cetim de seda
bege pintado. Armação em madeira doura da
Argola com cordão e borla franjada.
Dim.: 35,5 x 65 cm
Séc. XIX (?)
Museu de Lamego, Inv. 1665
Leque plissado de folha dupla em cetim de seda azul pintado. Armação em madeira esculpida, vazada e dourada
Dim.: 27 x 51,5 cm
Séc. XIX (?)
Oferta de Matilde Martinez Vasconcelos
Museu de Lamego, Inv. 1666
Leque brisé com varetas de madeira de recorte lobular, vazadas e pintadas no topo, unidas por fita de seda castanha
Dim.: 24 x 43,5 cm
Séc. XIX (?)
Museu de Lamego, Inv. 1667
Leque plissado tipo “Fontange”de uma folha em mousseline de seda
Pintura no anverso com ornamento de plumas no topo, colocadas sobre papel.
Armação em madeira dourada e pintada
Dim.: 40 x 40 cm
Séc. XIX (?)
Museu de Lamego, Inv.1668
Leque plissado com folha dupla em cetim de seda bege, rematada por fita de seda.
Pintura no anverso.
Armação em marfim, esculpida, dourada e vazada.
Argola com cordão e borla franjada em seda.
Dim.: 29 x 54,5 cm
Séc. XIX (?)
Museu de Lamego, Inv. 1669
Leque plissado de uma folha, em cetim de seda verde rematada por
fita de seda da mesma cor.
Friso ornamental na parte superior do anverso composto por placas metálicas,
medalhões laureados, folhas e lantejoulas.
Armação em marfim, incisa, vazada e pintada. Guarda com decoração piqué.
Dim.: 29 x 54,5 cm
Séc. XIX (?)
Museu de Lamego, Inv. 1670
Leque dobrável tipo “brisé” de palmetas em papel relevado, dourado e pintado.
Composição central no anverso representando cena galante
(litografia colorida a guache / cromolitografia ?)
Armação em marfim, incisa, vazada, pintada, decoração piqué no colo e guardas.
Argola com cordão e borla franjada em seda.
Dim.: 29 x 54,5 cm
C. 1850-1860
Museu de Lamego, Inv. 1672
Leque plissado de folha dupla em papel pintado e dourado.
Cartelas recortadas, litografadas e pintadas com narrativas historiadas
do quotidiano cortesão e popular.
Armação em marfim com colo e guarda esculpidas e vazadas com
decoração vegetalista e grillé.
Argola com cordão e borla franjada em seda
Dim.: 29,5 x 52 cm
Séc. XIX (?)
Museu de Lamego, Inv. 1673

[1] Perez, Rosa Maria, Culturas do Indico, p.224

[2]: Maria Isabel Raposo Osório (Inv. Nº 1221); Matilde Martinez Vasconcelos (Inv. Nº 1666).

[3] Quer enquanto objeto de culto (flabelum) ou de sedução.

[4] Deus do vento na mitologia clássica.

[5]  Eros / cupido – deus do amor na mitologia clássica (grega / romana)

[6] Pires, Tomé (1515) – Suma Oriental. In Visões da China na Literatura Ibérica dos Séculos XVI e XVII. Antologia Documental. Revista de Cultura. Edição do Instituto Cultural de Macau, Nº 31 (II SERIE) Abril / Junho, 1997. p.20

[7]  Sobreposição de holandeses e ingleses aos portugueses, a partir do século XVII.

[8] Como se verifica com o uso da sombrinha, do guarda-sol e da umbela.

[9] Muito generalizado o gosto pelo leque “mandarim” ou de “cabecinha”

[10] Anne-Louise Germaine Necker (1766-1817). Baronesa de Stäel-Holstein por casamento com o embaixador sueco, o barão Stäel-Holstein. escritora e critica literária.

[11] Frases de Madame Stäel. Disponível: f rases.art.br/madame-de-stael

[12] Ideia síntese, não consideramos algumas morfologias ligeiramente diferentes como os leques quebrados, (de origem chinesa), de varetas extensíveis, ventarolas, ou outras por considerar que a estrutura é similar e por não existirem exemplares na coleção do museu.

[13]  De origem francesa, reporta-se à sua forma elíptica, semelhante ao penteado introduzido pela duquesa de Fontanges (Marie Angélique de Scoreilles (1661-1681), predileta de Luís XIV.

Bibliografia

Alarcão, Teresa, Pereira, Teresa Pacheco (2000) – Normas de Inventário: Têxteis. Artes plásticas e artes decorativas. Lisboa: Instituto Português de Museus.

Amaro, Ana Maria (coord.) (1999) – Da folha de palmeira à peça de museu: o leque chinês [cat. expo.]. Lisboa: Missão de Macau em Lisboa.

Ferreira, Joana Correia da Silva (2015) – Os leques da casa-museu Medeiros e Almeida. Dissertação de Mestrado em Museologia apresentada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Frases de Madame Stäel. Disponível em: frases.art.br/madame-de-stael Acedido em Agosto de 2019.

Letourmy, Georgina; Llanos, José Luis de los (2013) – Le siècle d’or de l’éventail, du Roi

Soleil à Marie-Antoinette. Dijon: Éditions Faton.

Morgado, Alonso (1587) – História de Sevilla. II En la qual se contienen sus antiguedades, grandezas,y cosas memorables en ella acontecidas desde su fundacion. Disponível em: https://books.google.pt › books Acedido em 17 de Julho de 2019

Pinto, Paulo de Campos (2005) – Os Leques. In TEIXEIRA, Madalena Brás (coord.) – Museu Nacional do Traje, Roteiro. Lisboa: IPM, pp. 127-133.

Pires, Tomé (1515) – Suma Oriental. In Visões da China na Literatura Ibérica dos Séculos XVI e XVII. Antologia Documental. Revista de Cultura. Edição do Instituto Cultural de Macau, Nº 31 (II SERIE) Abril / Junho, 1997, p. 20.

Teixeira, Madalena Brás (2000) – Traje e Acessórios. In: Dias, João Carvalho, Figueiredo, Maria Rosa; Macedo, Rita Sousa (Coord.) – “Portugal 1900” (catálogo). Lisboa, Museu Calouste Gulbenkian, pp 339-349.

Georgina Pessoa | dezembro 2019