MAPA DE ÁFRICA DE J. B. NOLIN – 1785

Mapa de África
Autor: I.B. Nolin
Dim.: Alt. 124 cm; larg. 133 cm
Gravura
Paris, Edição: 1785
Museu de Lamego, inv. 8588
  Fotografia: Museu de Lamego/DRCN/José Pessoa

A necessidade de conhecer o espaço habitado está expressa nos vestígios da cultura material das civilizações mais antigas que chegaram até nós. Importantes ferramentas de orientação, localização e compreensão do território, são instrumentos fulcrais na expansão dos povos, servindo interesses económicos, militares e de poder.

Alteram as suas características formais e de conteúdo, de acordo com a evolução e os conhecimentos de cada época. Fabulados e imprecisos, com carácter artístico, vão substituindo uma linguagem naturalista por um registo mais rigoroso, técnico e preciso e uma representação mais abstrata, cuja leitura é apreendida através da legenda.

Se Eratóstenes, grego natural de Cirene, já no século III a.C. tinha medido o diâmetro da terra com grande precisão, é a Ptolomeu (c. 100 – 170) que a cartografia deve particular contributo. A sua obra [1] foi uma referência durante toda a Idade Média. Aos árabes coube a transmissão de um importante “corpus” de saberes e de meios técnicos. Assim, na Idade Moderna, novos conhecimentos no âmbito da astronomia, matemática, geometria, cálculo e de instrumentos como o astrolábio, o quadrante, a bússola, o telescópio, permitiram grandes avanços e possibilitaram a realização progressiva das viagens de navegação e exploração, da costa africana em primeiro lugar, do Oriente e da América depois. As técnicas de projeção cartográfica ganham um papel fulcral e os mapas tornam-se segredos de Estado, sigilosamente guardados.

A partir do século XVI verifica-se um incremento na produção cartográfica, de portugueses, italianos e espanhóis, afirmando-se nos seguintes, holandeses, ingleses e franceses. A sua importância consubstancia-se no interesse e empenho dos monarcas, expresso na criação do cargo de cartógrafo do rei.

A partir da segunda metade do século XVIII as coordenadas e os contornos dos continentes foram sendo reconhecidos. Assim, ao longo dos séculos XVII e XVIII a cartografia vai-se constituindo como ciência, racionalizando procedimentos e métodos.

O aperfeiçoamento das técnicas de gravação vai permitir a impressão dos mapas com maior qualidade e facilitar a sua difusão, alimentando um mercado crescente.

Numa Europa palco de grandes conflitos e interesse políticos, militares e económicos, os mapas tornam-se importantes fontes de informação na definição das políticas e estratégias dos estados, fazendo, destes, testemunhos culturais e históricas.

É neste contexto que se enquadra este mapa de África (semelhante ao existente na coleção da Biblioteca Nacional de França, com edição de 1775) com impressão a cores e edição de 1785, a partir de desenho do cartógrafo francês Jean Baptiste Nolin (1686-1762) ao serviço de Luís XVI, como se regista na simbólica cartela que preenche o canto superior direito: “L’AFRIQUE /Dressée / Sur les Relations les plus Recentes et rectifiées / Sur les dernieres Observations / Dediée et Presentée /A SA MAJESTÉ TRES CHRESTIENNE LOUIS XVI / Par son tres humble tres obeissent et fidel sujet / IB Nolin Geographe  A PARIS / Chez Crepy Rue de S. Jacques a l’Image S / Pierre pres la rue de lá Parcheminerie  / avec privilege du Roy / 1785”.

Mapa de África: pormenor com a cartela
Autor: I.B. Nolin
Dim.: Alt. 124 cm; larg. 133 cm
Gravura
Paris, Edição: 1785
Museu de Lamego, inv. 8588
  Fotografia: Museu de Lamego/DRCN/José Pessoa

Esta é encimada por cenas alusivas à missionação. No interior representa-se o encontro entre os autóctones e os europeus, num ambiente onde se inscreve a fauna e a flora da região, onde pontuam palmeiras, elefantes, macacos e leões … e a troca de presentes evidencia e legitima a prática da escravatura. Sustentam a cartela dois clássicos atlantes.

Em grande formato, Nolin apresenta o continente africano e ilhas, numa imagem coerente com o pensamento e os modelos cartográficos da Europa do seu tempo. Apontam-se as rotas, as descobertas, os nomes dos descobridores mais marcantes.

Regista-se a escala no canto inferior esquerdo: “Grandes lieues de France a 20 au Degré de L’Equateur… “.

Mapa de África: pormenor com a Escala
Autor: I.B. Nolin
Dim.: Alt. 124 cm; larg. 133 cm
Gravura
Paris, Edição: 1785
Museu de Lamego, inv. 8588
  Fotografia: Museu de Lamego/DRCN/José Pessoa

Na base, apresenta-se a história e a geografia de África. As cartelas que o circunscrevem desenvolvem uma narrativa sequenciada de episódios e relatos onde a história e as estórias se misturam, numa intencional valorização da cultura europeia e de fundamentação da ordem colonial.

Não dispomos de informação relativa à sua proveniência e integração no acervo do museu. Não consta de qualquer inventário ou documentação, a que até agora tivéssemos acedido. No F.D.AAML [2] registamos a aquisição de inúmeras peças entre as quais várias gravuras. Também a Biblioteca do Paço Episcopal, agora repartida pelo Arquivo Municipal e pelo Museu, possuía atualizado e erudito conteúdo: “…compõe-se de 6:000 volumes (..) a monumental edição da Encyclopedia de D’Alembert, (…) uma magnífica carta topographica de Roma antiga de uma minucia admirável de gravura. …” (RODRIGUES, 1908, 29-32). Ainda que como hipótese, parece-nos provável que esta peça tenha integrado o espólio desta biblioteca.

 Recentemente inventariada, dedicamos-lhe um olhar mais atento, destacando-a como Peça do Mês.

[1] Destaque para as obras “Geografia” e Almagesto

[2] F.D.AAML Fundos Documentais – Associação dos Amigos do Museu de Lamego.

Bibliografia

Carmen Líter, Ana Herrero, Francisca Sanchís. 1996. La geografía entre los siglos XVI y XVII. História da Ciência e da Técnica. Madrid: Ediciones AKAL ‎

‏‎https://books.google.pt/books – Acedido em: ‎14‎ de ‎janeiro‎ de ‎2019

Cortesão, Armando. 1935.Cartografia e Cartógrafos portugueses dos séculos XV e

XVI (contribuição para um estudo completo). Lisboa: «Seara Nova», Vol. I e II

Dias, Maria Helena (Coord.). 2005-2006. Cartas, plantas, esboços e projectos: Cartografia Militar Portuguesa dos séculos XVIII-XIX (catalogo). Angra do Heroísmo: Museu Militar do Açores, Direcção Regional da Cultura, Museu de Angra do Heroísmo.

Duarte, Joaquim Correia. 2013. História da Igreja de Lamego. Lamego: Diocese de Lamego

Garcia, João Carlos, Moreira, Luís Miguel. 2008. «El geógrafo trabaja en su casa»:

espaços portugueses na produção cartográfica de Tomas Lopez. Península. Revista de

Estudos Ibéricos | n.º 5 | 103-125

http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/4709.pdf – Acedido em 21 de janeiro de 2019

http://www.mapas-historicos.com/cartografia-historia.htm – Acedido em 18 de janeiro de 2019

https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b77590957/f1.item.zoom – Acedido em 4 de fevereiro de 2019

http://data.bnf.fr/15375433/jean-baptiste_nolin/  – Acedido em 4 de fevereiro de 2019

Rodrigues, José Júlio. 1908. O Paço Episcopal de Lamego. Porto: Typ. A. Vap. Da Empresa Litteraria e Typocraphica. Separata do Boletim da Associação do Magistério Secundário Official: 7-32

Georgina Pessoa | fevereiro 2019