Marinhas

As marinhas definem uma “paisagem com uma dominante de elementos marítimos…” (Caetano, 2007,98). Surgem timidamente nas iluminuras que ilustram os livros de horas[1], pequenas janelas que ao longo do século XV vão enquadrando cenários de narrativas religiosas ou profanas em empíricas perspetivas. Ganham espaço e conteúdo na pintura ao longo do século XVI, em artistas tanto do sul quer como do norte da Europa (Vittore Carpaccio, Joachim Patinir, Peter Brueghel, Konrad Witz,…). Autonomizam-se da «paisagem», ganham identidade própria nos séculos XVII e XVIII[2].

Pintam ou gravam em imagens as crónicas do tempo: disputas entre grandes potências, viagens, a chegada ou partida dos portos, naufrágios. Reais ou imaginárias. Partilham com os homens da ciência, geógrafos, cartógrafos, matemáticos, físicos… percursos e saberes. Do conhecimento da terra à geometria do espaço, da visão ao conhecimento da luz, a realidade é apreendida através do olhar e assim retida na tela. Característica transversal a outras temáticas, cenas de género, naturezas-mortas ou paisagens, onde a vida é o tema maior e o quotidiano se fixa e retrata com objetividade e a minúcia de uma lente.

Multiplicam-se as viagens, as permutas entre artistas e o fascínio por Itália será um voo para novo rumo a Norte. A intensa circulação de gravuras permite a aprendizagem e a reprodução nas inúmeras oficinas por artistas mais ou menos dotados, permitindo o acesso das classes emergentes a obras dos mestres. Artistas e aprendizes criam e copiam para alimentar um ávido mercado[3], custeado por uma economia que agora se desenha à escala mundial, liderada por uma forte burguesia mercantil e financeira, por príncipes e monarcas onde o espírito das luzes fermenta e a estética barroca se estrutura.

Na Holanda reformista do século XVII, poderosa potência marítima, estas temáticas ganham uma nova expressão, quer pela ausência de conteúdos religiosos, quer pelo incremento do mercado artístico, dando origem a que diversos pintores se especializem no tema, elevando-a a um nível superior. Jan Porcellis (1583-1632); Van Goyen (1596-1656); como Simon Vlieger (1601-1653); Van de Velde (c. 1611-1693); Van Ruisdael (1628-1682); Hendrick Jacobsz (1621-1676); Jean Peeters (1612-1653).

NAVIOS JUNTO À COSTA NUMA TEMPESTADE
Autor: Seguidor de Jan Porcellis
Países Baixos, Séc. XVII
Óleo sobre tela
Dim.: 44,7 x 35,9 cm [com moldura: 58 x 50 cm]
Proveniência: Antigo Paço Episcopal de Lamego
Museu de Lamego, Inv. 44
Fotografia: DRCN/Museu de Lamego/José Pessoa

Aqui se contextualizam duas marinhas da coleção de pintura do museu (fig. 1 e 2), companheiras na viagem que encetámos com Fernão de Magalhães. Transportam-nos para os mares intempestivos descritos pelo cronista Antonio Pigafetta no seu diário de bordo[4].

Provenientes do paço episcopal, teriam ornado as suas salas e contribuído para o seu enobrecimento. Beneficiando de prelados possidentes, cultos e atuantes, ligados ao poder e aos circuitos mais eruditos, eivados do gosto pelo colecionismo e pela modernidade, procuraram dotar o seu palácio do aparato necessário à sua condição e exigência. Refiram-se D. Fernando Meneses Coutinho de Vasconcelos (1513-1540), sobrinho de D. Manuel I e as obras que realiza no paço, D. João Lencastre (1622-1626) antes esmoler e capelão-mor de Filipe IV de Espanha (1605-1665)[5], “é possível que os primeiros lotes de pintura estrangeira tenham chegado por essa altura” (Azevedo, 1877, 82-83, Falcão, 2017, 13), D. Luís de Sousa (1671-1677)[6] que em representação de Portugal na cúria papal, requalifica as suas instalações em Roma, “entre os amplos e bem apetrechados salões estava instalada uma galeria de pinturas…” (Soromenho, 2001, 26; Falcão, 2017,12). Do inventário do bispo “o autor refere a predominância da pintura histórica… sem deixar de estar representados os géneros menores: paisagens, naturezas mortas, vedute, marinhas,…” (Soromenho, 2001, 29; Falcão, 2018, 13). O «sallam» de pintura do paço seria reorganizado nos finais de setecentos por D. Manuel de Vasconcelos Pereira (1773-1786)[7].

NAVIOS NUMA TEMPESTADE
Autor: Seguidor de Jan Porcellis
Países Baixos, Séc. XVII
Óleo sobre tela
Dim.: 44,5 x 36 cm [com moldura: 58,5 x 50 cm]
Proveniência: Antigo Paço Episcopal de Lamego
Museu de Lamego, Inv. 43
Fotografia: DRCN/Museu de Lamego/José Pessoa

Cumprindo uma missão pedagógica e decorativa, a pintura foi um meio recorrente no arranjo dos espaços interiores, presente na preocupação dos prelados. Representativas da escola holandesa do século XVII, de pequeno formato, atribuídas a um seguidor de Porcellis (Falcão, 2017, 87-90), transportam-nos para os mares tempestuosos enfrentados pelos galões holandeses cuja bandeira continua hasteada no topo do mastro. Numa dinâmica composição, apreendida a partir do ponto elevado da enseada, inscrevem-se sucessivos planos e jogos de linhas, onde o horizonte se aproxima e dilui nessa imensidão de céu com mar e a convergências das diagonais, definidas pelo movimento das nuvens e pela inclinação dos navios, adensa o dramatismo do momento. O detalhe revela-se em preciosismos lumínicos, em contrastes de claro/escuro, criando uma atmosfera intensa na qual o espectador é impelido a entrar pela proximidade do primeiro plano.

Retiradas da quietude das reservas em 2017[8], ganham agora vida no diálogo que estabelecem com as peças que com elas coabitam o espaço museológico e na interação com o público, na forma como este é capaz de as ver e de as interpelar.


[1] Livro de Horas de Turim-Milão do conde de Holanda– ilustrado por Jan van Eyck c. 1420

[2] Nos finais da centúria o Romantismo dar-lhe-á novo contexto e intencionalidade.

[3] Atente-se na importância, neste período, de centros económicos como Amesterdão, Anvers, Sevilha, Cádis e Lisboa e o papel de grandes marchands como a família Forchoudt ou Matthijs Musson et Marie Fourmenois e nos artistas que para eles trabalharam e serviram as suas encomendas.

[4] Antonio Pigafetta geógrafo e escritor italiano, acompanha a expensas próprias o navegador.

[5] Relembre-se que apesar dos conflitos em que se vê envolvido, como a guerra dos trinta anos, pressões internas e externas, incluindo de Portugal, Filipe IV (III de Portugal) desenvolveu um intenso mecenato ao nível das artes. Amante da música, das artes performativas e da pintura, (contou com Velásquez ao serviço), constituiu uma vasta coleção de obras sobretudo holandesas e italianas

[6] Além das obras que manda executar no paço de Lamego. Foi nomeado por D. Pedro representante de Portugal em Roma em 1675

[7] D. Manuel de Vasconcelos Pereira leva a cabo uma profunda intervenção no palácio episcopal

[8] No contexto da remodelação do Salão Nobre do Museu segundo projeto museográfico da responsabilidade de Luís Sebastian e Alexandra Falcão

Bibliografia

Azevedo, Joaquim (1877) – História Ecclesiastica da Cidade e Bispado de Lamego. Porto: [typographia do Jornal do Porto]

Caetano, Joaquim Oliveira (2007) – Normas de Inventário. Pintura. Lisboa: Instituto dos museus e da Conservação.

Colombier, Pierre du (1947) – História da Arte. Porto: Livraria Tavares. 203-322

Falcão, Alexandra Isabel (2018) –  Catalogo. Remodelação do Salão Nobre. Catalogo.[consultado: Fevereiro /2019] Disponível: https://issuu.com/066239/docs/catalogo_remodelacaosalaonobre

Faure, Élie (1949) – História da Arte. Lisboa:. Estúdios Cor. Vol. III, Vol. IV, 17-157

Rodrigues José Júlio (1908). O Paço Episcopal de Lamego. Porto: Typ. A. Vap. Da Empresa Litteraria e Typocraphica. Separata do Boletim da Associação do Magistério Secundário Official: 7-32

Soromenho, Miguel (2001) – «D. Luís de Sousa (1637-1690). O gosto de um mecenas» In Uma família de Coleccionadores – Poder e Cultura. Antiga Coleção Pamela. (coord. Maria Antónia Pinto de Matos e Maria de Sousa e Holstein Campilho) Lisboa: IPM / Casa Museu Dr. Anastácio Gonçalves, 15-41

Vale, Teresa Leonor M. (2014) – Coleccionadores ou adquirentes de obras de arte? Os embaixadores portugueses na Roma barroca e seus contactos com a produção artística: o caso de D. Luís de Sousa \ 1676-1682. ARTIS. Nº 2 p. 22 5-9 [consultado: Fevereiro / 2019] Disponível em: https://dadospdf.com/…/teresa-leonor-m-vale-coleccionadores-ou-adquirentes-de-obra…

Vries, Stefan de (2007) – Le commerce de l’art entre les Flandres et l’Espagne, 1648-1713. Paris:Université Paris Sorbonne [consultado: Fevereiro / 2019] Disponível: http://www.stefandevries.com/pdf/M1-Memoire.pdf

Georgina Pessoa | abril 2019