MARIONETAS JAVANESAS

Marionetas Javanesas
Java [Indonésia], Sécs. XVII-XVIII
Pele de animal, madeira (bambu), fibras vegetais, policromia
Proveniência: Doação de Maria Hermínia Elias da Costa Leitão
Museu de Lamego, Invs. 1599 e 1600
Fotografia: DRCN/Museu de Lamego/José Pessoa

Continuamos viagem acompanhando o navegador[1] pelo Oriente distante e enigmático, através do acervo do Museu de Lamego. Dele fazem parte um vasto e diversificado conjunto de peças provenientes de várias regiões da Ásia, reunidos pelo militar lamecense Humberto Leitão[2], que aí exerceu funções de oficial da marinha. Uma boa parte foi doada pelo próprio. Outra pela nora, Maria Hermínia Elias da Costa Leitão, que após a morte do sogro e já viúva, em 1974 decide doar alguns dos objectos herdados, a esta instituição.

É deste conjunto que destacamos duas marionetas javanesas representativas do teatro de sombras Wayang Kulit[3], pratica lúdica e ritual, onde as artes performativas se associam a narrativas históricas e religiosas. Difundido a partir das cortes locais, inspirado no repertório indiano Mahabharata e Ramayana, reporta-se às origens[4] de Java e aos fundadores da linhagem Pandawa de que Parikesite, neto de Arjuna, foi o único sobrevivente da grande batalha de Bharatayudda. “A islamização da Indonésia, iniciada no século XII com as rotas do comércio muçulmano, forneceu um novo código ao wayang kulit javanês, introduzindo mudanças morfológicas nas figuras e outras definições, que se perpetuam até à actualidade” (Penedo, 2012, 27). A partir dos séculos XVI e XVII o colonialismo holandês conferir-lhe-á novas dinâmicas. Formas e conteúdos vão sendo recriados e adaptados nas várias regiões, introduzindo novos elementos iconográficos, identificadores dos personagens e dos arquétipos que representam, numa perspetiva comunicacional focada na identidade e na eficácia da mensagem.

“(…) reconhecimento do poder de comunicação do wayang kulit por parte da elite religiosa e política, e por isso foi necessário imprimir novas marcas nas imagens das personagens. Outras mudanças foram estabelecidas, nomeadamente a nível de repertó- rio (…). As histórias javanesas do Mahabharata e Ramayana foram reescritas por autores formados por uma educação islâmica de elite, contemporânea do período colonial: (…) a mudança da iconografia das marionetas de Java defende que esta foi definida ao longo do século XVI, como consequência da conversão dos reinos de Java ao islamismo, processo que decorria gradualmente desde o século XI. (…) para contornar a proibição do wayang kulit pelas autoridades religiosas islâmicas, devido à representação artística do corpo humano, o Sunan de Giri do reino de Demak mandou fazer uma marioneta de uma figura humana estilizada “(Penedo, 2012, 28 -31).

Inseridas neste universo cultural, as marionetas do Museu de Lamego representam figuras humanas masculinas recortadas em silhueta, cinzeladas em pele de animal, suportadas ao centro por hastes de madeira. Possuem braços articulados e fixos nos ombros e cotovelos, com hastes de madeira nas mãos, que permitem a sua articulação. O corpo elegante (alus) de tamanho médio em pigmento dourado está ornado com alças e colar (kalung) Os rostos estão pintados de negro e vermelho respetivamente. Apresentam nariz comprido (dempok), olhos redondos (telegen) e boca com as gengivas expostas (gusen). Sobre o cabelo penteado formando arco (supit urang), assenta um colorido diadema (jamang). Vestes em torno da cintura com calças compondo um padrão geometrizado (bandong). Braços, pulsos e tornozelos adornados com pulseiras vermelhas e douradas. A cabeça, com inclinação para a frente (longok), e os pés distanciados traduzindo a agressividade e combatividade das personagens.

Construídas de acordo com a iconografia da personagem representada, evidenciam uma execução cuidada, no tratamento de pormenor, na apreensão das texturas, no carácter ornamental e apelativo que ressalta da aplicação do ouro e da intensa policroma que lhe sublinha e acentua o brilho.

À manipulação destas marionetas é imprescindível o marionetista – o dalang. É à noite e através dele, que as sombras projetadas destas personagens ganham vida.

 “O dalang é a chave da performance, como manipulador, ator, comediante, intermediário entre o público e as entidades sobrenaturais, memoriza, narra e canta os episódios teatralizados e coordena os músicos que o acompanham.” (Penedo, 2012. 35

Auxiliado por cantores e músicos, estimulado pelo som vigoroso do gamaleão onde se harmonizam gongos, xilofones, membranofones, cordofones e flauta, o ator expressa a sua criatividade e capacidade de improviso interagindo com a audiência, provocando a sua empatia e a emoção

“As marionetas javanesas fazem parte de um universo milenar pleno de memória e tradição, onde a história, a literatura, a cultura e a religiosidade se misturam para alimentar uma narrativa de profundo simbolismo. Estas frágeis figuras, sustentadas por singelas varas, conferem a materialidade a personagens de heróis e vilãos, instrumentos dos deuses, onde as forças mais profundas do mal e do bem se confrontam eternamente” (Pessoa, 2015, 31).


[1] Fernão de Magalhães (1480-1521) Viagem de Circum-navegação (1519-1522)

[2] Humberto Leitão (1885-1973 ?)

[3] Figuras cinzeladas em pele de bovino. A palavra Wayang significa em javanês sombra e Kulit pele, remetendo a palavra yang para o universo espiritual

[4] (Wayng Purwa – origem).

Bibliografia

Guilherme, Leonor Veiga de Oliveira Matos (2010) – Memoria e Contemporaneidade: arte contemporânea indonésia – um projecto curatorial. Lisboa, Universidade de Lisboa. Tese de mestrado apresentada à Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Acedido em: Março 2019-03-21 Disponível em: http://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/2039/2/ULFBA_TES356.pdf

Marquez, Marisa Peiró (2018) – Asia – Pacifico en la obra del artista mexicano Miguel Covarrubias (1904-1957). Tese de Doutoramento apresentada à Universidade de Saragoça. Universidade de Saragoça – Departamento de História da Arte. Acedido em: Março de 2019 Disponível em: https://zaguan.unizar.es/record/77093/files/TESIS-2019-048.pdf

Penedo, Ana Margarida (1912) – Marionetas de teatro wayang kulit de Java no Museu Nacional de Etnologia. Proposta metodológica para documentação da coleção. Lisboa: Instituto Universitário de Lisboa / Escola de Ciências Sociais e Humanas Departamento de Antropologia. Tese submetida como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Imagem e Comunicação. Acedido: Março de 2019-03-19 Disponível em: https://repositorio.iscteiul.pt/bitstream/10071/4974/1/Ana%20Margarida%20Penedo_Tese%20Mestrado.pdf

PESSOA, Georgina (2015), «Marionetas de varas – Wayang Golek – Marionetas de sombra Wayang Kulit», In Memórias de Timor em Lamego, Museu de Lamego/DRCN. Disponível em: https://repositorio.iscteiul.pt/bitstream/10071/4974/1/Ana%20Margarida%20Penedo_Tese%20Mestrado.pdf

Raffles, Thomas Stamford (1917) – The History of Java. London Acedido: marco, 2019 Disponível: http://www.gutenberg.org/files/49843/49843-h/49843-h.htm

Van Nees, Edward C. (1980) – Javanese Wayang Kulit, an Introduction. Singapore: Oxford University Press

Georgina Pessoa | julho 2019