Museu de Lamego recebe pintura de Novo Banco

No próximo dia 5 de dezembro de 2019, pelas 11h15, a Direção Regional de Cultura do Norte e o Novo Banco assinam protocolo de cedência de uma pintura de Joseph Vernet, pertencente à Coleção de Pintura do Novo Banco, para exposição permanente no Museu de Lamego. O evento contará com a presença da Senhora Secretária de Estado Adjunta e do Património Cultural, Ângela Ferreira.

Atribuído a Joseph Vernet (1714-1789)
Vista de Spoleto, 1753 (?)
Óleo sobre tela
91 x 130 cm
Coleção de Pintura NOVO BANCO

Joseph Vernet é um dos mais curiosos paisagistas franceses do século XVIII. Natural de Avignon, aos 20 anos viaja para Roma com o objetivo de completar a sua educação artística e aprofundar a sua formação como “pintor de História”. Nos primeiros anos vai especializar-se na pintura de marinhas, revelando grande talento para a representação de portos de mar, naufrágios, paisagens marítimas e fluviais com barcos diversos.

Embora a pintura de paisagem conheça um grande sucesso ao longo do século XVIII, era também uma tipologia, por um lado considerada “decorativa”, não tendo o prestígio da pintura dita de História, particularmente protegida pela Academia, e por outro lado, diferente e “moderna”, aberta à observação da natureza, ao captar de atmosferas, mais livre relativamente a iconografias e narrativas. Durante a sua estadia em Itália, Vernet vai confrontar-se com uma enorme diversidade de fontes de inspiração que serão um contributo fundamental para a sua pintura. A paisagem conjugava-se com a antiguidade clássica, ruínas, esculturas e arquiteturas diversas.

Em 1746 é admitido na Academia Real de Pintura e de Escultura de Paris. Nessa altura é já um conceituado paisagista, cujas obras atingem preços muito elevados e são copiadas por outros pintores e colaboradores.  No seu atelier trabalham vários artistas, interessados pela pintura de paisagem e pelo estudo da natureza ao ar livre, captando os cambiantes de luz e sombra que transformam as cores, formas e texturas dos elementos ao longo das estações do ano ou dos momentos do dia. A paisagem, as figuras que nela se enquadram, a natureza nos seus mistérios e metamorfoses, surpreendem e interpelam a alma humana. Vernet conjuga a natureza, a história, a narrativa, conseguindo uma obra plural nas evocações iconográficas e emotivas. Rochedos escarpados, cascatas, ruínas romanas, constituíam paisagens que suscitavam interesse e curiosidade. Nos seus cadernos de apontamentos e desenhos, deixou inúmeras informações que mostram o cuidado com que observava geografias, topografias, condições atmosféricas, os elementos da natureza, pessoas, costumes, trajes, utensílios, entre muitos outros pormenores, como as cores que deveriam ser utilizadas para dar a textura, a tonalidade e tudo o que era necessário para sugerir a veracidade da representação. Este recurso à natureza “tirada ao natural” e a integração de figuras diversas que convocam para a paisagem a componente humana, contribuíram para o enorme sucesso da sua pintura. A partir da realidade, Vernet criava cenários imaginários que interpelavam e surpreendiam. Diderot, grande admirador da obra de Vernet, considerava que “tudo o que surpreendia a alma conduzia ao sublime”.

Esta pintura representa uma vista de Spoleto, na Umbria. Entrou na Coleção de Pintura do Novo Banco identificada como “paisagem com ruínas e pescadores”, obra provável da escola de Vernet. A investigação desenvolvida recentemente identificou a paisagem como sendo provavelmente a vista de Spoleto que Vernet realizou em 1753 para o cônsul de Génova, juntamente com uma vista do porto de Ercole. Em 1770 a pintura foi reproduzida em gravura por Pietro Antonio Martini (1739-1797), pintor e gravador que divulgou em estampa diversas obras de pintores europeus. A intervenção efetuada no Instituto José de Figueiredo pelo Dr. Raul Leite, revelou a data de 1753, que corresponde à data da encomenda da pintura para o Cônsul de Génova.

Ana Paula Rebelo Correia