O Julgamento do Paraíso

Jean van Roome (debuxo, atrib.)

Bruxelas, c. 1520

Lã e seda. Tecelagem de alto liço

Proveniência: antigo Paço Episcopal de Lamego

Inv. 1

O pano intitulado “A Música” ou o “Julgamento do Paraíso”, cujo cartão tem sido atribuído ao pintor bruxelês, Jean van Roome, pertence a uma famosa série de quatro tapeçarias intitulada “O Combate entre os Vícios e Virtudes”, que deriva de um importante ciclo iconográfico da Idade Média, centrado na redenção da alma e salvação do Homem.

De caráter narrativo, a ação divide-se por dois níveis horizontais de leitura, nos quais se representa, no superior, o reino celestial de Deus e, no inferior, o mundo terreno.

Dominando visualmente, o registo superior, a figura masculina coroada e empunhando o cetro, é Deus, que preside, no céu, ao julgamento do destino a dar à humanidade entregue aos vícios.

À esquerda, um grupo de oito figuras femininas,  parecem convocadas pelas duas figuras que comandam o grupo e que são igualmente as únicas representadas armadas de espadas. Estamos aqui perante o conjunto das Virtudes que debatem o destino do homem pecador. As duas figuras que lideram o grupo de jovens donzelas são as mesmas duas que, em baixo, se lançam contra o grupo deleitado nos prazeres da música. Tratam-se das figuras representando a FORÇA e a JUSTIÇA. À esquerda do trono, uma figura segura na mão esquerda, um livro aberto apontando com a mão direita para as suas páginas. É a VERDADE que aponta para o livro onde estão registadas as faltas cometidas pela humanidade e para as quais a JUSTIÇA pede o castigo implacável de Deus.

Do lado oposto, à direita do trono, outras duas figuras femininas – a primeira de mãos postas e suplicantes, a segunda, mais jovem, de vermelho. São a MISERICORDIA e a PAZ, que advogam a causa do HOMO e suplicam a Deus o perdão para a humanidade.

Na cena seguinte, à direita da tapeçaria é apresentado um terrível combate entre virtudes e vícios, caracterizados, os últimos pela indumentária estranha e fealdade patente em algumas figuras.

Na parte inferior, à esquerda, em torno de uma mesa sobre a qual se pode ver um clavicórdio, três figuras femininas e duas masculinas, tocam e cantam. A figura feminina à esquerda toca clavicórdio e na sua frente do outro lado da mesa, um acompanhante toca uma flauta doce. No extremo oposto e ainda no plano inferior, ocorrem várias ações diversas. No sentido dos ponteiros do relógio, deparamo-nos com uma cena de intimidade amorosa; o momento preciso em que o corpete de uma jovem figura feminina está prestes a abrir-se sob a ação do gesto do amante (representando, aqui, o vício da Luxúria). Um outro casal, representado em primeiro plano, parece alheio, entretido em amena conversação enquanto dedilha um órgão de fole. Por detrás do órgão, podem ver-se três figuras tocando flautas de bisel. Na retaguarda da organista, o ambiente de deleite musical revela-se ainda na presença de um grupo de músicos, entre os quais uma jovem tangendo uma harpa portátil e duas figuras masculinas que seguram um tamborete e uma outra flauta. Na parte central da tapeçaria, estamos perante o aparente ataque de duas figuras armadas de longas espadas investindo contra outro grupo entretido no deleite dos prazeres dos sentidos. A figura feminina que de espada erguida – a JUSTIÇA – avança na direção da figura masculina que jaz por terra em evidente pavor.  Um pouco mais à esquerda, a segunda figura feminina empunhando uma espada e vestindo um longo manto azul (a FORÇA), vê o seu movimento travado pelo gesto de uma outra figura feminina (a MISERICORDIA), impedindo-a de avançar. Na frente da atacante, ajoelha, de mãos postas, uma figura feminina, a CULPA.