PEREGRINAÇÃO de Fernão Mendes Pinto

Este mês, propomos para leitura, a seleção de textos da obra, Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, inserida na coleção Textos Literários, editada em 1946 e dirigida por Rodrigues Lapa.

Livro "Peregrinação" de Fernão Mendes Pinto - Capa

Manuel Rodrigues Lapa foi um antigo professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, que seria afastado por divergências com o Estado Novo (Veloso 1997, 587-604; Dionísio, 6). Dedicou-se ao jornalismo e à direção de coleções literárias, como a Colecção de Clássicos Sá da Costa e os Textos Literários, da Seara Nova (Dionísio, 6).

O responsável por esta coletânea estruturou esta publicação em dezassete capítulos, com títulos atribuídos por si, onde apresenta os excertos selecionados, que retratam os países percorridos, a partir da primeira edição da obra, de 1614 (Pinto 1946, XIX).

Em relação a Fernão Mendes Pinto sabemos que foi um “…soldado, negociante, pedinte, embaixador, cortesão, jesuíta, pirata…” (Tavares 2008, 4). Na Peregrinação o autor e a sua criação confundem-se, uma vez que dimensão autobiográfica é evidente (Pinto 1981, XIII). De assinalar, que a publicação começou a ser construída 10 a 12 anos, após o regresso a Portugal (Tavares 2008, 4), que ocorreu em 1558 (Saraiva 2010, 131). A obra relata-nos a vida de Mendes Pinto, desde que saiu da casa do pai até que regressou a Portugal, depois de uma estada no Oriente (Saraiva 1971, 18), incluindo os 21 anos que passou na Abissínia, na Arábia, em Malaca, em Samatra, em Java, no Pegu, em Sião, na China e no Japão (Pinto 1946, VII), onde foi “…treze vezes cativo e dezassete vendido…” (Pinto 1946, 2).

De referir, que esta obra foi editada 31 após a morte do autor, depois de ultrapassados alguns entraves à sua publicação, designadamente, a Inquisição (Saraiva 1971, 16-17). A Peregrinação é, a seguir aos Lusíadas, um dos livros mais conhecidos fora de Portugal (Pinto 1981, X). No século XVII a obra já tinha sido traduzida em castelhano, francês, neerlandês, inglês e alemão (Saraiva 2011, 132). O grande interesse pelo livro deveu-se à apresentação das novidades de um espaço desconhecido para a maioria dos europeus (Pinto 1981, XI). Mas, à medida que o conhecimento sobre o Extremo Oriente se ampliou, começaram a questionar-se as informações de Fernão Mendes Pinto. Como vários especialistas notaram, o autor juntou relatos verdadeiros com fictícios, o que originou a expressão “Fernão mentes? Minto” (Saraiva 2010, 132).

A narrativa de Fernão Mendes Pinto inicia-se com a sua saída de Montemor-o-Velho, para Lisboa, para trabalhar na casa de uma senhora nobre, devido à sua pobreza. Todavia, vê-se forçado a fugir numa caravela de Alfama, que seria capturada por piratas franceses. Em relação à fuga Rodrigues Lapa aventa, como causa a provável, a provável ascendência judaica (Pinto 1946, 1-2). Ultrapassados os problemas com os corsários, voltaria a trabalhar em casa de fidalgos. Mas a procura por uma vida melhor leva-o a embarcar para a Índia. Em seguida relata-nos o naufrágio na ilha Samatra, a sua venda como escravo e o seu regresso a Malaca. Segue-se os problemas com o pirata Coja Acém e o contacto dos portugueses com os pescadores de Ainão, na procura do corsário. Relata duas histórias curiosas: a captura de uma noiva chinesa e o menino prodigioso, que repreende os portugueses pela sua incoerência nas palavras e atitudes (Pinto 1946, 51). Na demanda do pirata Coja Acém apresenta o encontro com piratas, que se aliam a António Faria. Relata o saque de Noudai, a recuperação em casa de um nobre, depois de enfrentarem um tufão, o comércio na China, onde descreve a sua organização, embarcações, produtos, inclusivamente, o cuidado que este reino tinha para com os mais pobres. Explana sobre os diferendos existentes entre os portugueses, devido às prosápias de fidalguia, situação que dificultou a sua estada na China até ao encontro com Vasco Calvo, um português que vivia neste território. Prossegue o texto com o impacto da primeira espingarda e o desenvolvimento, que teve no Japão, a aplicação da justiça do rei de Sião e a trágica história de Diogo Soares, governador de Pegu. E, por fim, a farça da princesinha, no Japão, onde os portugueses são alvo de zombaria por comerem com as mãos.

Nesta edição é de assinalar, o estudo sobre a vida e a obra de Fernão Mendes Pinto, os pequenos resumos, que se encontram no início dos capítulos, que ligam os vários excertos (Pinto 1946, XIX) e os mapas dos locais, onde esteve o autor da Peregrinação, Samatra e as terras do Extremo Oriente, e o itinerário que fez de Goa ao Japão. De registar a utilização de várias notas, onde são apresentados o enquadramento histórico e o significado das expressões que levantam dificuldades de compreensão.

Em suma, apesar da publicação de Rodrigues Lapa retratar apenas alguns capítulos da Peregrinação, fornece uma panorâmica geral, de um clássico da literatura portuguesa, referente a um tempo marcante da História de Portugal.

Livro "Peregrinação" de Fernão Mendes Pinto - Miolo

Bibliografia

Dionísio, João. Manuel Rodrigues Lapa, acedido a 9 de julho de 2019, http://dichp.bnportugal.gov.pt/imagens/lapa.pdf.

Pinto, Fernão Mendes Pinto 1946. Peregrinação. In Textos Clássico.

Pinto, Fernão Mendes Pinto 1981. Peregrinação e outras obras. In Colecção de Clássicos Sá da Costa. Sá da Costa, 2ª edição, vol. I.

Tavares, Carla Margarida Martins 2008. Identidade e Alteridade na Peregrinação de Fernão Mendes Pinto. (Dissertação de Mestrado, Universidade de Aveiro, 2008), acedido a 12 de julho de 2019, http://hdl.handle.net/10773/2775.

Saraiva, António José 1971. Fernão Mendes Pinto. In Obras de António José Saraiva. Nº 5, Europa-América, 2ª edição.

Saraiva, Arnaldo 2010. A Peregrinação de Fernão Mendes Pinto revisitada: a sua teoria moderna da viagem. In CEM/Cultura, Espaço & Memória, Nº 1, CITCEM/Edições Afrontamento, acedido 9 de julho de 2019, http://ojs.letras.up.pt/index.php/CITCEM/article/view/4873/4555.

Veloso, Rita 1997. Rodrigues Lapa Professor da Faculdade de Letras de Lisboa. In Actas do XII Encontro da Associação Portuguesa de Linguística, Vol. II, pp. 587-604, acedido 9 de julho de 2019, http://www.clul.ulisboa.pt/files/rita_veloso/Rodrigues_Lapa_APL.pdf.

Eduardo Monteiro | julho 2019