Por mares nunca dantes navegados

Iniciamos este ano as comemorações do V Centenário da viagem da circum-navegação, iniciada por Fernão Magalhães, em 1519, e concluída por Juan Sebastián del Cano, em 1522. Dos 12 livros – que iremos propor ao longo deste ano sobre a temática das viagens/ circum-navegação – que integram o espólio da biblioteca do Museu de Lamego, destacamos em primeiro lugar a biografia de Fernão de Magalhães, de Stefan Zweig, editada em 1938, (SERUYA 2017, 38. GIL, 2005), possuindo a biblioteca do museu a segunda edição, publicada pela Livraria Civilização, em 1939.

Stefan Zweig (1881-1942), escritor austríaco, de ascendência judaica [1], evidenciou-se a vários níveis, onde se destacam o romance, o ensaio, a novela, a biografia, a poesia e a tradução (BRITO 2016, 12). As suas obras ganharam grande popularidade e sucesso a nível mundial, como comprovam as traduções [2], em diversas línguas, bem como as suas adaptações ao cinema [3] (SERUYA 2017, 44-46).

Centrando-nos no livro deste mês (ZWEIG, 1939), é de assinalar o cuidado do autor em apresentar a conjuntura em que se vai desenvolver a grande aventura: a viagem da circum-navegação. Através de uma escrita absorvente e atrativa, capta o leitor para o feito de Fernão de Magalhães, que Stefan Zweig classifica como “…a mais extraordinária odisseia na história da humanidade, esta expedição de 265 homens decididos, dos quais só regressaram 18…” (ZWEIG 1939, 16). Todavia, a dimensão psicológica que o autor imprime na obra leva-o a aproximar-se mais do romance, conferindo uma maior vivacidade e realismo na apresentação dos factos (DANTAS 2012, 65). Descreve as várias vicissitudes que Fernão de Magalhães teve de enfrentar, desde a recusa do D. Manuel em apoiar o seu projeto, às dificuldades na preparação da armada, até aos problemas ocorridos durante a viagem.

Stefan Zweig procura preencher o vazio e o esquecimento a que foi votado Fernão de Magalhães. O autor descreve o navegador como um líder persistente, paciente, “mão de aço, dura, implacável…” (ZWEIG 1939, 135). Apresenta-o, também, como um herói, todavia, preparando o leitor para o desfecho trágico, pois “Uma tragédia só começa a desenrolar-se, no momento em que o herói reconhece o trágico da sua missão… Ser herói é saber combater também contra o destino esmagador” (ZWEIG 1939, 112).

De referir, ainda, a importância atribuída por Stefan Zweig a Pigafetta, onde exalta a sua importância para o conhecimento e divulgação do feito de Fernão de Magalhães, porque “O que vale a acção, se ninguém souber mostrá-la? Nunca o feito histórico está completo quando realizado, mas sim quando transmitimos à posteridade” (ZWEIG 1939, 124).

Por fim, sublinhar, igualmente, a preocupação do autor em situar o leitor, recorrendo a uma cronologia, para além de apresentar a lista de todo o material e custo da frota que cumpriu o sonho “… que os filósofos supunham há milhares de anos, o que os sábios sonharam, veio prova-lo a coragem indómita de um homem: a terra é redonda – um herói deu a volta à terra (ZWEIG 1939, 204).


[1] “Stefan Zweig”, acedido a 21 de janeiro de 2019, https://www.wook.pt/autor/stefan-zweig/24264

[2] Segundo Miguel Freitas da Costa refere que as obras estão traduzidas em “…cinquenta línguas, milhões de exemplares em circulação” Miguel Freitas da Costa, “Magalhães por Zweig: a volta ao mundo em mil e oitenta dias”, Observador, acedido a 6 de agosto de 2017, https://observador.pt/2017/08/06/magalhaes-por-zweig-a-volta-ao-mundo-em-mil-e-oitenta-dias/.

[3] Ver a indicação de filmes em Miguel Freitas da Costa, “Magalhães por Zweig: a volta ao mundo em mil e oitenta dias”, Observador, acedido a 6 de agosto de 2017, https://observador.pt/2017/08/06/magalhaes-por-zweig-a-volta-ao-mundo-em-mil-e-oitenta-dias/.

Bibliografia

Brito, Marina de. Stefan Zweig – por entre traduções e olhares. (Dissertação de Mestrado, Universidade de Lisboa, 2016), 12 acedido a 9 de janeiro de 2019, http://hdl.handle.net/10451/25922.

Miguel Freitas da Costa, “Magalhães por Zweig: a volta ao mundo em mil e oitenta dias”, Observador, acedido a 6 de agosto de 2017, https://observador.pt/2017/08/06/magalhaes-por-zweig-a-volta-ao-mundo-em-mil-e-oitenta-dias/.

Dantas, Irene da Silva. Entre Memórias: a questão da naturalidade de Fernão de Magalhães. (Dissertação de Mestrado, Universidade do Minho, 2012), 65, acedido  a 21 de janeiro de 2019, http://hdl.handle.net/1822/23293.

Gil, Maria de Fátima Rodrigues da Silva. Magellan. Der Mann und seine Tat de Stefan Zweig: um exemplo de “biografia moderna” dos anos 30 sobre uma figura histórica portuguesa. (Dissertação de Doutoramento, Universidade de Coimbra, 2005), acedido a 14 de janeiro de 2019, http://hdl.handle.net/10316/726.

Seruya, Teresa. 2017. “Stefan Zweig em Portugal. História de um Sucesso”. In Gaudium Sciendi, nº 12, 38-46, acedido a 10 de janeiro de 2019, http://www2.ucp.pt/resources/Documentos/SCUCP/GaudiumSciendi/GaudiumSciendi_N12/07.%20Seruya,%20Stefan%20Zweig%20em%20Portugal.pdf

“Stefan Zweig”, acedido a 21 de janeiro de 2019, https://www.wook.pt/autor/stefan-zweig/24264.

Zweig, Stefan, 1939. Fernão de Magalhães. Porto: Livraria Civilização.

Eduardo Monteiro | Janeiro de 2019