São Francisco Xavier

A missionação assumiu-se como um propósito e um instrumento no movimento expansionista que marcou a idade moderna e um agente transformador nas distintas áreas geográficas colonizadas, mesmo naquelas em que apenas estabelecemos feitorias e interpostos comerciais, onde se fixaram pequenos núcleos populacionais, ou em missão solitária, prolongando o espírito de cruzada numa vertente em que o gume da espada se substitui pela eficácia da palavra e a imposição pela integração e cooperação.

Às ordens religiosas coube um papel atuante nas mudanças culturais da Europa contra-reformista, sobretudo nas reformas político-religiosas das monarquias ibéricas. Em parte este processo evangelizador alicerça-se na doutrina emergente da Reforma católica, conducente ao Concilio de Trento (1545-1563) e num compromisso implícito entre a cúria romana e estes estados, tendo no Santo Oficio da Inquisição e nos jesuítas[1] o seu “exército de vanguarda”. No Oriente abriram novas perspetivas ao império português e desenvolveram novas formas de evangelização. Fig. 1

Escultura de São Francisco Xavier.
SÃO FRANCISCO XAVIER
Trabalho português, Séc. XVIII
Madeira dourada e policromada
Proveniência: Mosteiro das Chagas, Lamego / Capela de São João Evangelista
Museu de Lamego, Inv. 732
Fotografia: DRCN/Museu de Lamego/José Pessoa

Francisco Xavier, “o apóstolo do oriente”, encetará esta aventura por solicitação de D. João III (1502-1557) em 1541, integrando o Padroado Real da Coroa Portuguesa a fim de evangelizar as Índias Orientais. Foi o primeiro a aportar no longínquo Japão em Agosto de 1549.[2], depois de frutífera passagem pela Índia, Ceilão, Malaca e Molucas. “Na sua estratégia missionária exortou missionários e convertidos a empreenderem a tradução de textos do Cristianismo para as línguas locais” (Osswald, 2007, 16)

Não acompanhou Fernão de Magalhães[3] na viagem de circum-navegação, mas esteve com Fernão Mendes Pinto[4], de quem foi amigo e com quem partilhou dificuldades e criticas. Às que a distância e a língua impunham, juntaram-se as tensões e perseguições dos líderes locais, os interesses e conflitos dos capitães portugueses. A estes se opôs com frequência. “Conflitos que influenciavam diretamente naquilo que se alcançava e se perdia em termos materiais e também espirituais na missão ultramarina portuguesa” (Seule, 2015,1241). Distanciando-se do poder colonial, denunciando-o com duras palavras nas cartas que escreveu, algumas endereçadas ao monarca[5].

Francisco Xavier morre em Sanchoão (China) a 3 de dezembro de 1552. Foi canonizado pelo papa Gregório XV juntamente com Inácio de Loyola (1491-1556) em 12 de março de 1622. O seu corpo, encontrado incorrupto, foi levado para Goa para a basílica do Bom Jesus onde se encontra em majestosa arca tumular de vidro e prata, objecto de culto e local de peregrinação. As suas relíquias, quer corpóreas quer de contacto, serão cobiçadas e os episódios taumatúrgicos atribuídos ao santo estimulam e propagam a sua veneração. O culto a São Francisco Xavier teve larga adesão ao longo da época Moderna[6]. Muitas igrejas, confrarias e retábulos lhe são dedicados, sendo profusamente divulgado na imaginária. Em muito contribuiu a ação da Companhia de Jesus, distinguindo-o com a coroa do martírio, num contexto de afirmação do culto das relíquias, aspetos que a literatura e a arte vão difundir largamente a partir de1570.

A peça que agora se destaca, uma escultura de vulto representando o santo, integra a capela relicário de São João Evangelista no Museu de Lamego.

CAPELA DE SÃO JOÃO EVANGELISTA
Trabalho português, Séc. XVIII
Madeira dourada e policromada
Museu de Lamego , Inv. 123
Fotografia: DRCN/Museu de Lamego/José Pessoa

Originalmente inserida no claustro maior do extinto convento das Chagas[7], parte do seu espólio viria a ser trasladado para o museu por ação do seu diretor João Amaral[8].“No dia 26 de setembro de 1919 o sonho de João Amaral começa a tornar-se realidade. Na sequência de um oficio que dirige dois dias antes à Comissão Executiva da Câmara Municipal de Lamego, no qual solicita as esculturas de madeira que ainda restam nas capelas do claustro do extinto convento das Chagas sejam oferecidas ao Museu Regional, dão entrada no museu 36 esculturas de santos. […] Após a sua incorporação no Museu de Lamego capelas e altares foram reinstalados e as esculturas integradas nos respetivos nichos, numa configuração muito próxima da que ainda hoje perdura” (Falcão, 2015, 24-25).

SÃO FRANCISCO XAVIER (pormenor)
Trabalho português, XVIII
Madeira dourada e policromada
Proveniência: Mosteiro das Chagas, Lamego / Capela de São João Evangelista
Museu de Lamego, Inv. 732
Fotografia: DRCN/Museu de Lamego/José Pessoa

A escultura em vulto pleno, encarnada, dourada e policromada, apresenta o santo em pé em posição frontal. O rosto barbado, circunscrito pelo cabelo ondulado, destaca as feições harmoniosas que talham o nariz, a pequena boca e os olhos. Estes fixam o observador numa espécie de apelo intimista, que a expressão contida reforça. Os braços fletidos erguem-se à altura do tronco. Na mão esquerda sustenta o livro que o indicador mantém ligeiramente aberto, na direita simbólica e depurada cruz. A cabeça apoia o barrete de quatro pontas. Traja um roquete de mangas largas sobre a batina que lhe cai até ao chão, deixando visível o pé esquerdo, ligeiramente avançado. Sobre este dispõe-se a estola franjada, acompanhando o pregueado linear e austero das vestes, que o contraste cromático e as linhas ondulantes do remate procuram contrariar. Assenta sobre base poligonal com friso ornado de acantos.

Ao lado de uma plêiade de santos mártires, que ocupam os nichos que ladeiam o Apóstolo e Evangelista, convida a uma paragem no percurso museológico, a olhar e a ver, à reflexão e ao diálogo…


[1] [1] Francisco Xavier criaria com Santo Inácio de Loyola  e mais 5 discípulos a Companhia de Jesus  em Paris em 1534, reconhecida por Roma, pelo papa Paulo III, em 1540. As Constituições jesuítas apresentadas em Roma em 1554

[2] Francisco Xavier nasce no reino de navarra em  7 de Abril de 1506, morre às portas da China, na ilha de Sanchoão em 3 de Dezembro de 1552

[3] A viagem de circum-navegação de Fernão de Magalhães decorreu entre 1519-1522

[4]  Fernão Mendes Pinto (1509-1583) autor da obra “Peregrinação” integrou durante um curto período de tempo a Companhia de Jesus.

[5] D. João III

[6]  Muito se deve, também, ao impulso dado pelas monarquias ibéricas e ao interesse do nobre japonês Ôtomo Yoshihige (Rei do Bungo, batizado por Francisco Xavier em 1551)

[7] Extinto em 1834 e encerrado em 1906 após a morte da última religiosa.

[8] Ofícios. Nº 68 e 73 Livro de correspondência expedida, Museu de Lamego

Bibliografia

Arquivo do Museu de Lamego – Livro de Correspondência Expedida. Ofícios nº 68, 73.

Falcão, Alexandra Isabel (2015) – In Sebastian, Luís (direção).”A Glorificaçãodo Divino. Escultura Barroca do Museu de Lamego”. Museu de Lamego/DRCN, Acedido em: Março de 2019 Disponível em: http://issuu.com/066239/docs/aglorificacaododivino_catalogo

Osswald, Maria Cristina (2007) – A Oração em São Francisco Xavier. Acedido: Março 2019 Disponível: ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/6119.pdf

Osswald, Maria Cristina (2018) – S. Francisco Xavier, o “Apóstolo do Oriente”: estratégias da constituição dum culto na época Moderna (sécs. XVI-XVII). Revista: Lusófona de Ciência das Religiões. Ano VII, nº 13/14.327-342 Acedido: Março de 2019-03-13 Disponível em http://recil.ulusofona.pt/bitstream/handle/10437/4205/sao_francisco_xavier.pdf

Queirós, Carla Sofia Ferreira (2002) – os retábulos da Cidade de Lamego e o seu contributo para a Formação de uma Escola regional. 1680-1780. (Dissertação de mestrado em História da Arte em Portugal apresentada à faculdade de Letras da Universidade do Porto). Lamego: Câmara Municipal de Lamego

Seule, karla Katherine de Sousa (2015) – FRANCISCO XAVIER E FERNÃO MENDES PINTO: O MISSIONÁRIO E O MERCADOR FRENTE AO IMPÉRIO PORTUGUÊS NO ORIENTE. VII Congresso Internacional de História Acedido: marco de 2019. Disponível: http://www.cih.uem.br/anais/2015/trabalhos/1482.pdf

Silva, José Sidónio Meneses da (1998) – O Mosteiro das Chagas de Lamego. Vivências, espaços e espólio litúrgico. 1588-1906. (Dissertação de mestrado em História da Arte em Portugal apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto). Lamego: Câmara Municipal de Lamego

Georgina Pessoa | junho 2019