Sege

Os momentos mais marcantes na evolução da Humanidade relacionam-se com o conhecimento técnico e tecnológico aplicado no âmbito dos meios de transporte e das vias de comunicação.

A utilização da força animal e a invenção da roda foram, entre outros factores, responsáveis pela revolução neolítica. As pontes e as estradas romanas testemunham um período de intensa construção e criatividade. O aumento da força motriz dos cavalos e inovações nos sistemas de tracção estarão na base da revolução operada na idade média.

Das mulas tangidas pelos almocreves por inóspitos carreiros, às deslocações das comitivas reais, do clero ou da nobreza, percorria-se e traçava-se uma rede viária precária e perigosa que a legislação ia procurando resolver como o evidenciam as cartas de privilégios dadas a estalajadeiros, almocreves e barqueiros.

Portugal, com uma vasta extensão costeira, encontrou no mar uma porta sempre aberta e nela um impulso ancestral para a viagem. Certamente, este não deixou de ecoar no espírito de todos os navegadores. Como em Fernão de Magalhães (1480-1521) de cuja Viagem de circum-navegação se celebram os 500 anos (1519-1522). Aventura que serviu de mote à escolha da Peça do Mês.

Iniciamos esta viagem com uma Sege, da colecção de meios de transporte do museu dos séculos XVIII-XIX.

A construção de carruagens e o seu uso generaliza-se, intensifica-se e diversifica-se a partir dos séculos XVI, XVII e XVIII.

As primeiras seges datam do séc. XVII, tendo este tipo de carruagem sido usada até aos finais do século XIX. De origem alemã, rapidamente se generaliza o seu uso em toda a Europa. Designada Chaise – Sege no aportuguesamento do termo, puxada por cavalos apresenta pequenas dimensões, com meia caixa tipo coupé e dois lugares, sustentada por duas ou quatro rodas e dois varais. A condução podia ser feita pelo ocupante, por um boleeiro [1] ou por sota [2].

A sua estrutura leve confere-lhe um bom nível de equilíbrio e de mobilidade, uma óptima adaptação às ruelas estreitas dos burgos, bem como a agilidade necessária para maiores viagens. O seu carácter utilitário e o seu aspecto frágil estão na origem da designação comum de “traquitana”.

A utilização da sege vulgarizou-se deixando de ser um meio de transporte usado apenas pelas classes privilegiadas. Acessível à maioria da população, tornou-se no “carro de aluguer” de excelência, dentro e fora das cidades.

“Mas o tempo, que nada poupa, breve se encarregaria de reformar essa espaventosa galeria de carros, para a fazer substituir pela sége – a escura e desconjuntada sége que quasi chegou aos nossos dias. Os coches com paisagens e scenas pintadas nos paineis; as berlinas e calexas de portinholas brazonadas; os florões castelhanos, carregados de pregaria; as estufas, pesadas de cristaes da Bohemia; todo um mundo de arte, de graça e de fausto ambulantes – tudo isso foi morrer, esquecido, abandonado, desmantelado, ás mãos grosseiras dos segeiro do século passado”.(Pessanha, 1925, 69)

A sege do Museu de Lamego integra agora a sua exposição permanente, ocupando uma das salas do piso térreo. Proveniente do Paço Episcopal, teria servido os bispos da diocese nos finais do século XVIII e século XIX.

Apresenta as características deste tipo de veículo com pequena caixa tipo coupé de perfil côncavo, com estrutura de madeira pintada a preto no exterior, tejadilho curvo e duas janelas laterais. O interior é acolchoado e forrado na parte superior por têxtil azul de tom claro, ornado de pequenos círculos relevados no interior. Tem aplicações laterais em brocado bege, assim como no friso disposto em rectângulo horizontal no alçado posterior e nas pegas franjadas de apoio aos ocupantes, colocadas junto às janelas. Na parte inferior alojava-se o assento de dois lugares. A ausência de alguns elementos, como o assento e o alçado dianteiro da caixa, impossibilita uma leitura rigorosa da mesma.

Algumas imagens presentes no artigo de Sebastião Pessanha, “Carros, Liteiras e Cadeirinhas” (Pessanha, 1925, 66), são identificadas pelo autor como peças do Museu de Lamego. É o caso da imagem da sege da pág. 66 que supomos corresponder à peça seleccionada, aqui com os elementos agora em falta.

Imagem da sege do Museu de Lamego
Pessanha, Sebastião. 1925.
Carros, Liteiras e Cadeirinhas. «Terra Portuguesa».
Lisboa: nº 40, 66
© Hemoroteca Digital de Lisboa

A caixa é sustentada por fortes correias de suspensão, com quatro rodas ao estilo inglês. De 12 raios e 8 raios, de madeira revestidos de aro de ferro no exterior, ligados por dois varais. O acesso à caixa é feito através de estribo suspenso. Por detrás da caixa, apoiado nas longarinas, trave de madeira com estribo para apoio do moço. A condução poder-se-ia fazer por sota, como era frequente, ou por cocheiro, considerando a correspondência supra mencionada na qual é visível a existência do respectivo banco.

[1] Homem a cavalo, sustentava a rédeas conduzindo a sege de lado.

[2] Homem montado no cavalo de sela que conduzia a parelha dianteira.

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Pessanha, Sebastião. 1925. Carros, Liteiras e Cadeirinhas. «Terra Portuguesa». Lisboa: nº 40. 65-73

http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/Periodicos/TerraPortuguesa/1925/N40 –  Consultado em 27 de dezembro de 2018

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Georgina Pessoa | janeiro 2019