Série de Édipo

Bernard van Orley (debuxo, atrib.)  e Pieter Aelst (oficina)

Bruxelas, 1525-1530

Lã e seda. Tecelagem de alto liço

Proveniência: antigo Paço Episcopal de Lamego

Invs. 3, 4, 5 e 6

Constituindo um testemunho valioso de uma das mais importantes formas de decoração sumptuária de palácios e residências dos grandes e poderosos, em toda a Europa, o conjunto de quatro panos ilustra a História de Édipo, cujo assunto deriva da obra homónima do escritor grego, Sófocles.

O facto de não se conhecerem outras tapeçarias tratando este tema, permite-nos concluir que se tratou de um tema raro, de pouca divulgação, realizado de acordo com uma encomenda específica. A esta especificidade, realizada possivelmente a partir de uma encomenda particular relacionada com a ação do bispo de Lamego D. Fernando Meneses de Vasconcelos (1513-1540), acresce a sua qualidade artística, indicando tratar-se de uma produção de grande qualidade no que diz respeito aos cartões preparatórios – possivelmente de autoria do pintor flamengo Bernard van Orley – e ao domínio técnico atingido na sua execução, levando a atribuir esta série à oficina de Pieter van Aelst, uma das mais importantes de Bruxelas.

Reveladora da importância a que os sucessivos bispos de Lamego sempre devotaram à sua coleção de tapeçarias, é a sua presença quase ininterrupta no paço episcopal, onde volvidos mais de três séculos após a sua aquisição, ocupavam lugar destacado: a forrar as paredes de três salões contíguos, o salão de receção, do trono e o de audiências ou visitas. Foi aí que, em 1915, o investigador Joaquim de Vasconcelos as encontrou e imediatamente salientou a sua importância.

Laio consulta o oráculo

Ao centro da composição Laio, rei de Tebas, acompanhado pela sua comitiva, ajoelha à entrada do templo onde o oráculo lhe prediz que morrerá às mãos do filho nascido da rainha Jocasta. À esquerda, abre-se uma câmara, ocupada por um leito com baldaquino, onde se vê Jocasta, mulher do rei Laio. Em redor do leito, damas consolam a rainha pelo desaparecimento do filho recém-nascido. No plano superior, à direita, sob fundo de paisagem, os pastores abandonam Édipo, com os pés trespassados por uma cadeia de couro pela qual foi suspenso numa árvore depois de terem recebido a criança recém-nascida das mãos de Laio. No primeiro plano quatro personagens masculinas, em traje de corte, uma delas erguendo um falcão, comentam a cena.

Édipo em Corinto

O pano revela o episódio da adoção de Édipo pelos reis de Corinto.

Em primeiro, ao centro vê-se a Rainha Mérope que oferece um fruto a um menino – Édipo criança -, que corre para ela, fugindo dos braços de um homem – o pastor Forbas, ajoelhado à direita. Junto da rainha, está o rei Pólibo com cetro e turbante coroado. Mérope é aqui representada em todo o esplendor da sua beleza realçada pelo traje de sofisticadas mangas, belíssimos tecidos e, sobretudo, pela grande beleza do longo manto de seda, sobre o qual cai uma discreta capa de arminho, assinalando o estatuto régio da personagem. Pólibo, rei de Corinto, é representado como um velho monarca, de longas barbas brancas que quase se confundem com os cabelos também longos e brancos. Da coroa real são apenas visíveis as pontas que se erguem sobre o elaborado turbante. Veste um traje curto, cuja saia curta termina por um estreito galão franjado. Em redor, damas e cortesãos assistem e comentam a cena entre si. Fundo de arquiteturas aberto, à esquerda, sobre paisagem.

Apresenta uma enorme lacuna situada na extremidade direita, ocupando aproximadamente dois terços de toda a altura da tapeçaria, preenchida por um fundo neutro.

Édipo em Tebas

O terceiro painel mostra a chegada à cidade de Tebas, onde Édipo se apresenta a um grupo de damas da corte, uma das quais tocando alaúde. A dama com um vestido de brocado vermelho representa possivelmente a sua futura mulher/mãe, Jocasta. Ao fundo, duas vinhetas com acontecimentos passados e futuros encontram-se justapostas uma à outra. À esquerda, Édipo, sem o saber, mata seu pai, Laio, com uma espada e à direita, um Édipo mais velho e de barbas, depois de saber a horrível verdade, cega os seus próprios olhos com um comprido alfinete do vestido de Jocasta. Há várias referências visuais à Antiguidade Clássica, tais como, os elementos arquitetónicos e o medalhão com o retrato de um Imperador romano (Júlio César?), de coroa de louros na cabeça, que se vê em baixo à esquerda. As figuras femininas exibem elegantes trajes renascentistas, típicos da corte de Margarida de Áustria.

Édipo e a rainha Jocasta

O tema central é a coroação de Édipo como rei de Tebas e o casamento com Jocasta.

No centro, o casal régio ocupa o trono sob um alto dossel. Jocasta é representada como uma mulher ainda jovem, ostentando a coroa e o cetro reais. Édipo, a quem uma grossa cadeia de ouro cai sobre o peito, senta-se à direita de Jocasta. No cinto que lhe cinge a veste, mostra a inscrição EDIPVS.

Em primeiro plano e de cada lado da tapeçaria, aproximam-se do trono duas figuras masculinas que, em atitude de reverência, trazem a coroa e o cetro real. Na retaguarda da figura que segura a coroa, agrupam-se outras duas figuras que presenciam a cena. Uma delas aponta para a cena e para Édipo. Entre duas colunas que integram a estrutura arquitetónica de encontro à qual se ergue o trono, podem ver-se dois arautos fazendo soar instrumentos de sopro. No plano posterior esquerdo, o momento no qual Édipo defronta e decifra o enigma da Esfinge. À direita da tapeçaria e igualmente no plano posterior, duas figuras femininas de expressão enigmática e distante.