SERVIÇO DE CHÁ em destaque na “Peça do Mês” de agosto

Não louvo os manjares, por ser a terra de Japão mui esteril, mas o serviço, ordem e limpeza, e as peças, que são todas para louvar (…)[1].  

Consta do arquivo do Museu[2] uma carta de João Pinto de Oliveira, endereçada a Abel Florido, datada de 7 de Março de 1985, onde se lê: “Tenho, procedente da antiga C. da Índia (há exactamente 53 anos) dois serviços de loiça oriental «Sattzzuma», tenho um de café e outro de chá que, como lamecense que sou, e para que amanhã se não percam, desejo oferecer ao museu de que V. Exª é mui digno Director. Para tal ficam os ditos serviços inteiramente ao dispor de V. Xª (se assim o entender) …”.

RELAÇÃO DE PEÇAS
Documento datilografado
1985
Arquivo – Museu de Lamego

A resposta não podia ter sido mais célere, já que as peças dão entrada na instituição nesse dia.

CARTA MANUSCRITA
De João Oliveira Pinto
Dirigida a Abel Florido
1985
Arquivo – Museu de Lamego

É notório o valor que lhe é atribuído, centrando o objectivo da doação na sua perseveração. Produzidas na região de Satsuma[3], na ilha de Kyushu, no sul do Japão, apresentam características particulares, onde se fundem as ancestrais técnicas dos ceramistas vindos da Coreia[4], a cultura budista e o gosto das crescentes clientelas ocidentais. A argila de composição calcária, coberta por um vidrado marfim, cozida a uma temperatura inferior à da porcelana, ganha um subtil e característico craquelê. A decoração exibe o imaginário oriental executado com esmaltes policromos e ouro, que inicialmente circunscreve as figuras,[5] para ir, progressivamente, preenchendo o espaço. As texturas relevadas criadas pelos esmaltes, o ouro e a iconografia conferem-lhe um exotismo e um carácter decorativo, criando um novo gosto europeu, que se afirma no século XIX. Para tal contribuíram as grandes Exposições Universais[6], realizadas nos Estados Unidos e Europa, com a participação ativa do governo Meiji[7] e no que concerne à cerâmica de Satsuma, o Clã Shimazu[8]. Nos períodos Taisho[9] e Showa[10] procuram recupera-se técnicas e estéticas tradicionais, num esforço de superação dos competitivos produtos chineses, caminho e motivação para a inovação. Todavia, o aumento da procura conduziu ao fabrico em série e a uma consequente perda de qualidade. As delicadas pinturas feitas à mão cedem lugar à estampagem e o ouro a um dourado metálico.

Indissociável destas peças[11]está o costume de beber chá, assumindo contornos muito particulares no arquipélago nipónico. Em si uma expressão artística e uma experiência estética à qual se associaram várias artes.

Quando os portugueses desembarcaram no Japão em 1543, o costume de beber chá era já uma pratica habitual. Expandiu para a Europa, particularmente por ação dos jesuítas que o integraram nos seus hábitos e o divulgaram no ocidente. Ligado aos templos budistas chineses, teria sido introduzido no Japão pelos monges. Ao “Dancham” um chá prensado, sobrepôs-se o chá verde moído – “matcha”, generalizado a partir do século XII, “tornando-se num elemento importante nas reuniões. A sua degustação era muitas vezes acompanhada por música e recitação de poesia. Afirmando que esta bebida prolongava a vida, Esai (ou Yosai) apresentou ao xógum um tratado sobre o chá, que resultou em larga medida do que tivera oportunidade de observar nos mosteiros budistas chineses que visitara (…)” (Curvelo, 2007, 16).

A ligação do chá ao conceito zen – «o chá e o zen tem o mesmo sabor», conceito introduzido no Japão no período Kamakura (1185-1333), e o incremento do seu consumo em reuniões e encontros motivou a realização de concursos, os tocha[12], que a partir do séculos XVII se tornam num encontro mais vasto o Cha Kabuki[13].

O ato de beber chá – chanoyu obedecia a regras bem definidas e minuciosas, instituídas pelos monges zen e observadas pelas elites sociais (monges, xógum, corte imperial, samurais, mercadores) fazendo desta prática “uma arte que está na fronteira do quotidiano e do artisticamente artificial” (Yasuhiko, 1994,4).

Das cerimónias da era Momoyama, do dinamismo introduzido por Murata Suku (1422-1502), à depuração de Takeno Joo (1502-1555), à sobriedade atribuída por Rikyu (1521-1591)[14], exímios mestres da cerimónia do chá, são também destacadas e influentes figuras políticas[15]. Num universo onde se conjugam aspetos filosóficos, sociais, económicos e políticos, aparentemente contraditórios mas onde a prática e a disciplina do ritual assumem um papel fundamental nas sociabilidades. No período Edo (1615-1868) o cerimonial do chá generaliza-se, expressando práticas e gostos diversos. Agente facilitador da ação missionária e recurso presente nas práticas jesuíticas[16]. Agregando várias expressões e conceitos da arte e da cultura japonesa, num apelo ao uso de todos os sentidos e à observação de uma ética e de uma estética que alia o bem e o belo, onde se valoriza o conhecimento e a harmonia, a partilha na intimidade e a fruição do momento, irrepetível, único. Recria-se acompanhando o processo histórico do país, dentro de um quadro profundamente ritualizado e performativo. Portugal terá sido o responsável pela sua introdução no ocidente[17], cabendo a Catarina de Bragança[18] a sua introdução nos círculos aristocráticos ingleses.

Continuamos viagem além-mar, em “terra do sol nascente”, inspirados pela aventura do navegador e os aromas do chá contidos nestas peças de cerâmica, a harmonia dos espaços, a beleza dos movimentos… registos da memória que a cultura material transporta.

SERVIÇO DE CHÁ 
Cerâmica
Satsuma – Japão
Século XIX – XX
Museu de Lamego, Inv. Nº 3562 a 3581
  Fotografia: DRCN – Museu de Lamego. José Pessoa

[1] Frois, Luis (1565-1578) – Historia de Japam. Ed. Anotada por José Wicki S. J.(1981) Lisboa, Biblioteca Nacional,. Vol. II, p. 40. Cit. Curvelo, Alexandra (2007) – Histórias e memórias sobre a arte do chá. In Obras primas da Cerâmica Japonesa. (catalogo). Lisboa, IMC, p. 18

[2] A.M.L. Procº 49.2

[3] Governada pelo clã Shimazu até aos finais do século XIX, cujo símbolo heráldico (kamon) é representado por uma cruz grega no interior de um circulo, elemento iconográfico presente em algumas destas peças.

[4] No contexto da invasão japonesa do século XVII

[5]  Visualmente próxima do cloisonné

[6] Referimos a importância da Exposição de Paris em 1867 e a de Viena em 1873 e o impato que aqui causaram as cerâmicas japonesas.

[7] 1868-1912

[8] Clã daimyo da região de Stasuma. Fundado por Shimasu Tadahisa

[9] 1912-1926

[10] 1926-1989

[11] A quem devem em parte o estímulo da sua produção

[12] Não se visava a identificação do tipo de chá como na China, mas sim a região de onde provinha.

[13] Está ligado a um conceito de arte global que reúne declamação, musica, canto, dança, o movimento.

[14] Onde requinte e beleza se encontram na simplicidade e na imperfeição, dentro dos princípios wabi

[15] Desempenharam um importante papel na integração dos portugueses no Japão.

[16] E na própria adaptação dos templos cristãos, que agregavam um espaço para a realização cerimónia do chá após a celebração da missa.

[17] Introduz a produção de chá nos Açores, na ilha de São Miguel, onde se destaca o chá Gorreana.

[18] Catarina Henriqueta (1638-1705) esposa de Carlos II, rainha consorte da Inglaterra.


Bibliografia

Curvelo, Alexandra (2007) – Histórias e memórias sobre a arte do chá. In Obras primas da Cerâmica Japonesa. (catálogo). Lisboa, IMC, p. 15-30

Frois, Luis (1565-1578) – Historia de Japam. Ed. Anotada por José Wicki S. J.(1981) Lisboa, Biblioteca Nacional, 1981. Vol. II. Disponível em: https://books.google.pt/books Acedido em: Maio de 2019-05-28

Yasuhiko, Murai (1994) – “The Development of Chanoyu: before Rikyu.” Tea in Japan. Essays on the History  of Chanoyu. Ed. Paul Varley e Kamakura Isao. Honolulu, University of hawai’i Press, 1994, p. 3-32 [trad. Paul Varley]. Cit. Curvelo, Alexandra (2007) – Histórias e memórias sobre a arte do chá. In Obras primas da Cerâmica

CAMPOS, Teresa (1999) – Normas de Inventário – Cerâmica: cerâmica de revestimento: artes plásticas e artes decorativas. Direcção de Serviços de Inventário – Instituto Português de Museus [coord.] Lisboa: Instituto Português de Museus.

Georgina Pessoa | agosto 2019