Taprobana e mais além…Presenças de Portugal na Ásia

Ao prosseguirmos a nossa viagem com os livros, destacamos este mês a obra Taprobana e mais além…Presenças de Portugal na Ásia, da autoria de Benjamim Videira Pires, S.J. (1916-1999), publicada em 1995 pelo Instituto Cultural de Macau e inserida na Coleção Documentos e Ensaios.

Benjamim Pires foi missionário, pedagogo, historiador, escritor (Rangel 2016, 7) e uma das figuras de maior relevância a nível cultural e cívico, em Macau, na segunda metade do século XX (Rangel 2016, 7).

Nasceu em Torre Dona Chama, Mirandela, onde completou o ensino primário, tendo seguido depois para o Seminário Menor, em Cáceres (Barata 2016, 22). Com o regresso dos jesuítas a Portugal, em 1932, estudou em Guimarães e em Alpendorada (Oliveira 2016, 53). Em 1936, terminou o Curso Superior de Humanidades Clássicas e de Literatura Portuguesa. Frequentou, no Instituto Beato Miguel de Carvalho, de Braga, um ano de Questões Científicas (Física, Química e Matemática), obtendo, em 1940, o bacharelato em Filosofia. Estudou ainda Teologia, na Faculdade da Cartuxa, em Granada (Barata 2016, 23).

A sua atividade de docente iniciou-se em Macieira de Cambra, no Seminário Menor dos Jesuítas, onde lecionou Literatura Portuguesa, ocupação que manteve em Macau, onde chegou em janeiro de 1949 (Rangel 2016, 8). Com o gosto de ensinar, fundou o Instituto D. Melchior Carneiro, em 1961, do qual foi diretor (Barata 2016, 25-27). Desempenhou igualmente várias funções pastorais (Rangel 2016, 11-13).

Na sua intervenção cívica e de apostolado, é de assinalar a sua participação no jornal jesuíta Religião e Pátria, de que foi diretor (Rangel 2016, 14-15; Bruxo e Escaleira 2016, 67-78) e a colaboração no jornal a Confluência (Rangel 2016, 15-16).

Pertenceu a várias associações, como a Academia Portuguesa de História, a Academia da Marinha, o Instituto Histórico Ultramarino e a International Association of Historians of Asia (Barata 2016, 29), tendo sido condecorado com o Grau de Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, em 1973, e a Ordem Militar de Santiago da Espada grande colar de Ciências, Letras e Artes, atribuído postumamente, em 1999 (Barata 2016, 30).

A sua atividade científica centra-se no estudo da presença portuguesa na Ásia, com particular atenção para a Igreja, atividade dos missionários e da Companhia de Jesus (Rangel 2016, 9-10).

Os últimos anos que passa em Macau ficariam marcados pelo conflito na substituição da direção do Instituto D. Melchior Carneiro (Alves 2016, 44-47). Voltou para Portugal, em agosto de 1998, onde viria a falecer, em janeiro do ano seguinte (Barata 2016, 27).

A obra deste mês encontra-se dividida em duas partes. Na primeira, composta por sete capítulos, analisa a ilha de Taprobana, o Sri Lanka, a Birmânia, o Camboja, a Tailândia, a Indonésia, a Malásia, o Vietname e o Laos. Na segunda parte, composta por dois capítulos, estuda as Filipinas e o Japão. Não inclui nesta obra o estudo da China, embora refira a necessidade de desenvolver um estudo aprofundado para que se possa compreender a ação dos portugueses nesse território (PIRES 1995, 14). Apresenta uma síntese de cada nação a nível histórico, sobre a evolução política, económica, comercial, cultural – arte, literatura, religião, ciência e ensino -, bem como do papel dos portugueses – em particular, dos missionários jesuítas – e aos vestígios que testemunham a sua presença.

De salientar, ainda, que no capítulo dedicado ao Japão, antes de descrever a sua viagem ao País do Sol Nascente, o Padre Benjamim Pires apresenta o itinerário de S. Francisco Xavier, uma vez que este tinha sido a sua referência – quando estava a terminar a primeira classe e lhe apareceu o carbúnculo prometeu, se o Santo o curasse, que seria “…missionário como ele” (Barata 2016, 22; OLIVEIRA 2016, 53) – e  o motivo da sua ida para Macau, uma vez que estaria mais perto de Sanchoão, local onde morreu S. Francisco Xavier (Rangel 2016, 11). A descrição que faz da sua viagem é muito visual, enquadrando historicamente os locais que visita e relatando a presença da Companhia de Jesus, ou seja, “…Evocando Portugal” (Pires 1995, 321).

De referir o trabalho de pesquisa de fontes e de investigação desenvolvido, revelando um profundo conhecimento sobre a documentação, como no trabalho Fontes Documentais da História de Malaca (Pires 1995, 179-180), ou a apresentação de vários documentos e excertos, como no caso do trabalho Malaca, na “Relação” de Bocarro (1635) (Pires 1995, 163-165), no qual teve o cuidado em adequar a linguagem, para uma melhor compreensão, e introduzir inúmeras notas de rodapé desenvolvidas, a fim de fundamentar argumentos e elucidar o leitor, para além de a ilustrar profusamente com mapas, desenhos e fotografias de vestígios deixados pelos portugueses.

Com o título retirado da quarta estrofe, do primeiro canto dos Lusíadas, procura apresentar a aventura dos portugueses, movido pelas saudades do seu País, mas obedecendo a critérios rigorosos de investigação. 

Bibliografia

Alves, Ana Cristina 2016. A Miscigenação de Benjamim Videira Pires. In Revista de Cultura, Nº 53, Instituto Cultural do Governo da Região Administrativa Especial de Macau, acedido a 4 de abril de 2019, http://www.icm.gov.mo/rc/viewer/pdf/40053.

Barata, Aureliano 2016. Padre Benjamim Videira Pires. Percurso de um Educador e Historiador de Macau. In Revista de Cultura, Nº 53, Instituto Cultural do Governo da Região Administrativa Especial de Macau, acedido a 4 de abril de 2019, http://www.icm.gov.mo/rc/viewer/pdf/40053

Bruxo, Jorge e Escaleira, Maria de Lurdes N. 2016. Pensamento e Acção de Benjamim Videira Pires em Religião e Pátria. In Revista de Cultura, Nº 53, Instituto Cultural do Governo da Região Administrativa Especial de Macau, acedido a 4 de abril de 2019, http://www.icm.gov.mo/rc/viewer/pdf/40053.

Oliveira, Celina Veiga de 2016. A Embaixada Mártir de Benjamim Videira Pires. O Cristianismo e a sua Circunstância. In Revista de Cultura, Nº 53, Instituto Cultural do Governo da Região Administrativa Especial de Macau, acedido a 4 de abril de 2019, http://www.icm.gov.mo/rc/viewer/pdf/40053

Pires, Benjamim Videira 1995. Taprobana e mais além…Presenças de Portugal na Ásia. In Documentos e Ensaios. Instituto Cultural de Macau.

Rangel, Jorge A. H. 2016. Benjamim Videira Pires S.J. Memória e Homenagem. In Revista de Cultura, Nº 53, Instituto Cultural do Governo da Região Administrativa Especial de Macau, acedido a 4 de abril de 2019, http://www.icm.gov.mo/rc/viewer/pdf/40053.

Eduardo Monteiro | abril 2019