Timor Imperativo de Consciência

Ao continuar a viagem na nossa biblioteca, destacamos este mês a obra Timor Imperativo de Consciência, da autoria de Jorge Vasconcelos, publicada em 1992 e inserida na Colecção Grandes Registos.

No início da obra o autor apresenta-se como um português de quinta classe, “Um timorense, nascido português de segunda, que passou à terceira como retornado, tendo depois “metido” uma quarta, como emigrante, e sendo, depois mais tarde, despromovido, para a quinta classe, ao regressar pobre a Portugal.” (Vasconcelos 1992, 9)

A obra conta com um texto introdutório de Margarida Rebelo Pinto, no qual reflete sobre os erros da descolonização portuguesa, onde destaca o esquecimento que Timor sempre enfrentou. No prólogo, a escritora impele o leitor para o drama que o povo de Timor estava a viver e para os acontecimentos trágicos do massacre do cemitério de Santa Cruz, que tinham ocorrido no ano anterior à publicação deste livro.

Na publicação, o autor tem a preocupação de divulgar a cultura timorense, que se encontrava em risco de desaparecer. Apresenta o quotidiano e as vivências do povo timorense. Inicia a obra com um conto e canto tradicional, Nálè, Nálè. No capítulo seguinte descreve a vida dos timorenses, a atividade agrícola, onde destaca as plantações de arroz, do milho, as festas das colheitas, como “sama hare[1], e o “tebedai[2]. No seguimento da apresentação da vida agrícola, Jorge Vasconcelos refere a importância dos bazares, mercados tradicionais, que ocorriam duas vezes por semana. Estes mercados, para além de serem espaços comerciais, tinham, igualmente, uma vertente lúdica e social muito importante, sendo, por esse motivo, proibidos durante o domínio indonésio. No terceiro capítulo analisa as religiões tradicionais, os vários grupos étnicos e linguísticos, apresentando Timor como uma manta de retalhos, consequência do clima e da geografia da ilha. De assinalar, ainda, a apresentação de uma tabela, onde apresenta os vários grupos etnolinguísticos.

A partir do quarto capítulo inicia um discurso que marcará a obra, quando compara um combate de galos, com a situação que Timor vive, onde os apostadores são as grandes potências mundiais e a aposta o petróleo (Vasconcelos 1992, 44).

No quinto capítulo descreve o percurso até chegar a caminho de Tutuala, as povoações, as casas, como Vero e Ioro, com uma linguagem viva, que transporta o leitor para os espaços descritos. Enaltece a valentia das populações de Tutuala visível ao longo da história. Esta população apenas seria controlada por Celestino da Silva, governador de Timor entre 1894 e 1908 (Roque 2011, 1). O autor dedica ainda atenção aos usos e costumes dos timorenses, desde o nascimento, o ritual da imposição do nome, o casamento, a vida familiar, bem como outros hábitos, caso do levirato e sororato.

Na última parte da obra o autor centra a sua atenção na situação que Timor enfrentava, tecendo uma crítica em relação ao comportamento e esquecimento de Portugal, os interesses que suportam e justificavam a ocupação da Indonésia, apontando o dedo às potências mundiais, que considera as principais responsáveis. Para além de reprovar a politica expansionista da Indonésia baseada no uso da força, assinala a gravidade do caso timorense, com a prática do etnocídio, com o transporte de timorenses para outras ilhas, a transferência de javaneses para Timor e esterilização das mulheres.

De assinalar, que a obra concilia o texto e a imagem para fornecer ao leitor uma maior aproximação à realidade do povo e à cultura timorenses.

De registar, ainda, a análise dos Relatórios sobre a descolonização, que inclui o relatório elaborado pelo governador Mário Lemos Pires[3] e o Relatório da Comissão de Análise e Esclarecimento do Processo de Descolonização de Timor. Apesar dos relatórios terem sido publicados, em 1981, sofreram vários constrangimentos, que limitaram a sua circulação, impedindo o acesso à população portuguesa. Por esse motivo, no final da publicação, inclui parte do volume II do Relatório do processo de descolonização de Timor.

Em suma, a obra é um grito de dor e de alerta, para a situação dos timorenses, para mostrar ao Mundo, que acordava depois de assistir ao massacre de Santa Cruz, um povo escravizado e uma cultura em risco de desaparecer.


[1] Danças – Sama hare,  acedido a 14 de maio de 2019, http://www.cjpav.org/pt/cerit/as-gentes/cultura-educacao/305-dancas?start=2 

[2] Severino, Carlos, 2009. Tebedai (Bidu e Lore) e Dahur, dois exemplos das danças timorenses e seus elementos,  acedido a 14 de maio de 2019, https://www.academia.edu/3579483/Tebedai_Bidu_e_Lore_e_Dahur_dois_exemplos_das_dan%C3%A7as_timorenses_e_seus_elementos

[3] De destacar, também, a obra: Pires, Mário             Lemos, 1991. Descolonização de Timor Missão Impossível?. Círculo de Leitores/Publicações Dom Quixote.

Bibliografia

Danças – Sama hare,  acedido a 14 de maio de 2019, http://www.cjpav.org/pt/cerit/as-gentes/cultura-educacao/305-dancas?start=2

Roque, Ricardo 2011. José Celestino da Silva e o Relatório sobre os usos e costumes de Timor. In Marques, V. R.; Roque, A. C. e Roque, R. (eds.), Atas do Colóquio ‘Timor: Missões Científicas e Antropologia Colonial. IICT acedido a 14 de maio de 2019, http://repositorio.ul.pt/handle/10451/6104.

Severino, Carlos 2009. Tebedai (Bidu e Lore) e Dahur, dois exemplos das danças timorenses e seus elementos,  acedido a 14 de maio de 2019, https://www.academia.edu/3579483/Tebedai_Bidu_e_Lore_e_Dahur_dois_exemplos_das_dan%C3%A7as_timorenses_e_seus_elementos.

Pires, Mário Lemos, 1991. Descolonização de Timor Missão Impossível?. Círculo de Leitores/Publicações Dom Quixote.

Vasconcelos, Jorge 1992. Timor um Imperativo de Consciência. In Colecção Grandes Registos. Produce.

Eduardo Monteiro | maio 2019