Um Ano. Um Tema destaca túmulo do Conde de Barcelos

Em maio, a rubrica “Um Ano. Um Tema” viaja até ao Mosteiro de São João de Tarouca ao encontro do sarcófago de D. Pedro Afonso, Conde de Barcelos. Figura de relevo no panorama cultural e político português da primeira metade do século XIV, o seu túmulo resulta de uma encomenda prévia do próprio conde, o que revela que pretendia um monumento decididamente imponente.

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Sarcófago de D. Pedro Afonso, conde de Barcelos

1340

Granito

Igreja do Mosteiro de São João de Tarouca

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Túmulo de D. Pedro Afonso, conde de Barcelos (cliché de Marques Abreu), em 1918, na nave direita da igreja do mosteiro de São João de Tarouca, antes da sua deslocação para o transepto do lado oposto. In. Vasconcellos, Joaquim de (1918) – Arte Românica em Portugal. Porto: Marques Abreu, p.64.

A exemplo do progenitor, que inicia a ocupação do interior do templo por parte dos monumentos fúnebres ao fazer-se tumular na igreja do mosteiro das monjas cistercienses de Odivelas, por ele fundado, num sarcófago que é considerado um dos primeiros verdadeiramente monumentais da tumulária gótica portuguesa, o bastardo régio de D. Dinis, o conde D. Pedro Afonso, escolheu para sua última morada o mosteiro de São João de Tarouca, pertencente à mesma comunidade religiosa.

Figura de relevo no panorama cultural e político português da primeira metade do século XIV, Pedro Afonso nasceu no último quartel do século XIII. Foi casado com Dona Branca Pires Portel e Dona Maria Ximenes, tendo sido a sua última mulher, Dona Teresa Anes de Toledo, o seu grande amor e musa inspiradora de algumas das cantigas de Amigo que lhe são atribuídas.

Com a morte da primeira mulher, o conde herdou uma das maiores fortunas do seu tempo, a que se somariam várias doações régias com que o seu pai o foi distinguindo, pese embora as incompatibilidades existentes entre ambos que o obrigaram a um exílio político.

Esse exílio permitiu-lhe um contacto estreito com a realidade cultural castelhana e europeia. De regresso ao reino, opta por viver nos seus domínios das Beiras, sobretudo na Honra de Lalim, dedicando-se à redação de três obras: Livro de Cantigas, Livro de Linhagens e a Crónica Geral de Espanha (BARROCA, 1992: 135).

Viria a falecer em 1354. O seu túmulo resulta de uma encomenda prévia do próprio conde e devia estar concluído em 1350, pois nesse ano redigiu o seu testamento, onde declara o local onde queria ser sepultado. Essa referência é muito importante já que permite saber que as impressionantes dimensões da sua arca feral foram resultado de uma encomenda do próprio. Revela-nos que pretendia um monumento decididamente imponente. Em Portugal, poucos monumentos (ou moimentos, como eram designados na Idade Média) conseguiram igualar, em dimensão e imponência, o túmulo de D. Pedro (BARROCA, 1992: 136).

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Túmulo de D. Pedro Afonso, na nave direita da igreja do mosteiro de São João de Tarouca, antes de ter sido deslocado para o transepto do lado oposto (1950) © SIPA. Foto 0083546

Originalmente situado no lado direito do cruzeiro, o túmulo foi transferido pelos monges de São João de Tarouca para a nave do mesmo lado, em 1634. Só mais tarde, na década de 50 do século XX, obras decorridas no interior da igreja, o fizeram trasladar para o local onde hoje se encontra, no transepto do lado oposto.

Sobre a deslocação da arca ocorrida no século XVII, seis anos antes da Restauração da Independência e, por conseguinte, com uma intenção clara de enaltecimento da figura do bastardo régio, a crónica sobre o reinado de D. Dinis, do monge alcobacense, Fr. Francisco Brandão informa-nos sobre a abertura da sepultura nessa data:

acharaõ a armaçaõ dos ossos toda inteira: mediraõ o corpo com h~ua cana, & constou ter de comprido quasi onze palmos & meio [cerca de 2,53 m]; a sepultura não promettia menos corpo, porque he grande em demasia… na meia cabeça da parte direita, tinha meio barrete de cetim amarelo tostado, forrado de tafeta da mesma còr, tudo mui saõ ainda; & o cabelo desta mesma parte crecido com grande melena, & sobre maneira ruivo; calçava esporas douradas, & dentro dellas estavaõ as solas do calçado inteiras de ponta aguda, como então se custumava (BRANDÃO, 1650: fl. 180).

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Fotografia: Túmulo de D. Pedro Afonso (pormenor). © Museu de Lamego | José Pessoa

Estudado e analisado por inúmeros historiadores, é comum, para além de sublinhar-se as desmesuradas proporções do sarcófago, destacar-se o interesse da narrativa incluída em três das faces do sarcófago, inserindo-a num reduzido número de arcas que recorrem à representação de cenas cinegéticas ou venatórias, como modo de assinalar a origem social do tumulado, constituindo a caça uma das atividades principais da nobreza. (BARROCA, 1992: 136). Entre outros exemplares com o mesmo assunto, refira-se o sarcófago de outro bastardo de D. Dinis, D. Fernão Sanches, que se conserva no Museu Arqueológico do Carmo, sem dúvida o de melhor qualidade entre aqueles que recorrem a esta iconografia, e o erroneamente atribuído a D. Branca Pires Portel, no Museu de Lamego. (GOULÃO, 2009: 58).

Composto por uma arca retangular em granito, o túmulo de São João de Tarouca revela-nos nas faces longas duas cenas de montaria, que constituem um documento de inegável interesse sobre as técnicas mais comuns na Idade Média de caça ao porco montês. No facial da direita, entre arbustos estilizados, três caçadores, empunhando lanças e tocando olifantes, enquanto vários cães encurralam e atacam o javardo, entretanto vítima da lança de um dos monteiros. Na outra face, um cavaleiro, identificado como o próprio D. Pedro, ataca o javali com uma longa lança em riste. (GOULÃO, 2009: 58). Na secção da arca correspondente aos pés, divisa-se um escudo com as armas nacionais.

Contudo, será no jacente, com uma evidente intenção retratística, que melhor se releva a personalidade do portentoso conde de Barcelos, numa representação que é considerada das mais conseguidas que a nobreza nos apresenta de si própria no século XIV (SILVA, 2005: 62).

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Fotografia: Túmulo de D. Pedro Afonso (pormenor). © Museu de Lamego | José Pessoa

Impõem-se desde logo as dimensões gigantes da figura (mais de três metros), correspondendo não propriamente ao tamanho físico […], mas antes à enorme importância social e política deste filho bastardo de D. Dinis: a túnica larga recobrindo os pés (um pormenor raro na imagética masculina coeva), o manto (visível apenas sobre os ombros), com a mão direita a segurar, em gesto cortês, o comprido cordão que, pendendo do manto, desce a direito, ornando com nós espaçados e uma desenvolvida borla no final; a espada, por fim (apesar de muito destruída), discretamente empunhada pela mão esquerda e colocada lateralmente. O rosto é de um ancião, de barba, bigode e cabelos forte, testa alta, uma expressão de grande serenidade e maior dignidade que (esta, sim) agiganta notavelmente a figura do conde de Barcelos (SILVA, 2005:62-63).

Aos pés, repousa um mastim, ou lebréu, que a par da figuração da espada, constitui um dos mais importantes símbolos de nobilitação utilizados na tumulária medieval portuguesa.

Referências bibliográficas:

BARROCA, Mário Jorge (1992) – «Sarcófago do Conde D. Pedro». In Nos Confins da Idade Média. Arte Portuguesa Séculos XII-XV. Porto: SEC/ Museu Nacional Soares dos Reis.

BRANDÃO, Francisco Fr. (1650) –Monarchia Lusytana: que contem a historia dos primeiros 23.annos del Rey D. Dinis, vol. V. Lisboa: na officina de Paulo Craesbuck.

[http://purl.pt/14191/3/#/0, 15-06-2016]

FREIRE, Anselmo Braancamp (1996) – Brasões da Sala de Sintra, vol. I. Lisboa: INCM

GOULÃO, Maria José (2009) – «Expressões Artísticas do Universo Medieval». In RODRIGUES, Dalila (coord.) – Arte Portuguesa da Pré-História ao Século XX, vol. 4. Lisboa: FUBU Editores.

SILVA, José Custódio Vieira da (2005) –  «Memória e Imagem. Reflexões sobre Escultura Tumular Portuguesa (séculos XIII e XIV)», Revista de História da Arte, nº1, Lisboa: Instituto de História da Arte – Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, pp. 47-81. [https://run.unl.pt/bitstream/10362/12429/1/ART_2_Cust%C3%B3dio_RHA1.pdf, 14-06-2016]

VASCONCELLOS, Joaquim (1918) – Arte Românica em Portugal. Porto: Marques Abreu.