SAPATOS DE LÓTUS em destaque na “Peça do Mês” de setembro

Acessórios ou objetos de tortura? 

Este mês sugerimos uma viagem até à China, através de um par de sapatos de lótus da coleção do comandante Humberto Leitão, para conhecer uma das mais inquietantes tradições ligadas ao universo feminino chinês, cuja origem remonta ao séc. X.  

Deixando estas ilhas, que são sem conto as que se não sabem os nomes, assim habitadas como ermas, que correm contra o norte, torno-me à costa que de Malaca vai contra os chineses, de que não tenho tanta informação. Somente que, passando o reino de Sião e outros muitos reinos, está o reino da China, que dizem que é uma muito grande terra e senhorio, tanto pela terra firme como de longo da costa do mar.”[1]

Sapatos de lótus (par)
Seda, metal, couro, madeira (?)
Séc. XIX, China
Dim.: Comp.12 cm; Alt. 9 cm; Larg. 4 cm
Museu de Lamego, Inv. Nº 1777 

Remota e distante a China[2], chega ao conhecimento do ocidente através de relatos de aventureiros e navegadores, em si vagos e imbuídos de uma visão fantástica. Marco Pólo refere o imenso e poderoso império mongol situado algures no extremo Oriente. Vasco da Gama e as consequentes viagens de exploração deram-lhe contornos mais precisos, estimulando a cobiça de muitos e o gosto pelo conhecimento de outros.

Em 1509, uma década antes de Fernão de Magalhães encetar a sua viagem de circum-navegação, coube aos portugueses estabelecer, a partir de Malaca os seus primeiros contactos, objetivando as informações e aumentando as expectativas sobre a exótica e rica terra dos chins[3]Estes foram importantes elos entre as duas áreas geográficas, enquanto as naus portuguesas aportaram no litoral da China, seja por demanda régia ou por iniciativa de mercadores. Também os missionários[4], contribuíram para um relacionamento profícuo com aqueles cujas semelhanças de cor e de civilidade os aproximava dos ocidentais[5], ao mesmo tempo que as porcelanas, sedas e lacas alimentavam o gosto das elites, as fortunas de muitos e a literatura encontrou um fértil universo, onde o descritivo e o imaginário corporizaram uma visão apelativa de uma cultura superior, tão diferente e enigmática[6]. O gosto por esta cultura milenar será uma constante expressa nos testemunhos que enriquecem as coleções dos nossos museus.

É o exemplo da peça que nos acompanha na viagem que prosseguimos com o navegador[7] ao longo do mês de setembro – um par de sapatos de lótus.

Sapatos de lótus (par)
Posição frontal

Estes sapatos femininos, oriundos da China, integram a doação feita ao Museu de Lamego pelo comandante Humberto Leitão, em 1972. Manufaturados em seda, ornados por delicado bordado em fios policromos que, na livre sinuosidade com que se difundem pelo suporte, vão dando corpo a pequenos ramos floridos. À frente a abertura, vertical, está ladeada por decorativos frisos geometrizados, destacados por fio dourado.

Sapatos de lótus (par)
Perspetiva da base e bordado
Sapato de lótus (pormenor)

A fragilidade que deles emana materializa-se na sua pequena dimensão, tornando a qualquer ocidental inacreditável a possibilidade da sua funcionalidade. Porém, a sua utilização constituiu uma realidade de séculos[8] para muitas mulheres e correspondeu a um elevado ideal de beleza assumido pela cultura e estética feminina chinesa. O pé deveria ter entre 7 a 9 cm, prática que pressupunha o impedimento do seu crescimento, ficando a mulher com um eterno pé de criança. Para tal recorria-se ao enfaixamento do mesmo, entre os quatro e os sete anos, técnica que consistia na tração do calcanhar para a frente, quebrando e aumentado o arco plantar, com os dedos dobrados e firmemente pressionados contra a planta do pé. Posição mantida pela aplicação de faixas, no fim da qual eram costuradas, impedindo que a criança as tirasse. Este procedimento, profundamente doloroso e incapacitante[9], acarretaria enormes limitações de mobilidade. “As mulheres chinesas […] as criam desde pequenas com os pés tão amarrados que vêm depois a ficar quase trôpegas no andar” (Bocarro, 1617)[10], o que dificultava a execução de múltiplas tarefas, para as quais necessitavam de criados, sendo por isso praticado pelas elites. Requisito para obter um bom casamento, devendo o marido possuir meios que lhe permitissem a sua sustentação, afirmando-se como um indicador do seu estatuto social. Exaltados pelos poetas desde Confúcio[11], a origem deste costume poderá remontar ao século X[12], atribuída à decisão de uma bailarina de envolver os pés em tiras de seda, para lhe facilitar os movimentos[13] que executava sobre um pedestal em forma de Lótus. A beleza dos seus movimentos teria sensibilizado o imperador e ganho a adesão feminina que, assim, procurara ter um pé similar aquele, que se assemelhava a uma pétala de flor de lótus. O simples ato de caminhar implicava dobrar os joelhos, balançando o corpo, o que ficou conhecido como marcha de lótus, símbolo de sensualidade e erotismo. ”As mulheres são muito formosas […] Têm por grande gentileza terem os pés pequenos. Este [costume] tornou-se obrigatório, de modo que, às filhas dos nobres, quando nascem, cortam-lhes um nervo nas plantas dos pés, para que não cresçam, e por isso andam muito devagar e pouco.” (Román, 1584)[14]. Este costume, praticado sobretudo no norte da China pela etnia Han, será adaptado no sul pelas etnias do Hakka e Manchu, criando um tipo de sapato com uma plataforma elevada, que lhe permitia um movimento idêntico. “As mulheres são de bom parecer em seu modo, e tratam-se muito bem, […] e quando hão-de ir fora, vão metidas em andas todas cobertas de sedas, em colos de homens, rodeadas de servidores.” (Barros, 1563)[15]

Este costume, que procurava atingir uma beleza idealizada e exibir um poder intangível à maioria, contra a qual se opôs a feminista “Brigitte Kwan[16], manter-se-ia até à queda da dinastia Qing em 1911. Apesar da República Popular da China proibir esta prática, só nos meados o século XX, com a imposição do governo comunista (1949), será cumprida, libertando a mulher de uma prática mutiladora, brutal e profundamente incapacitante. Permanecem as peças, companheiras de mais uma viagem …


[1] Albuquerque, Luís (1989) – Livro do que viu e ouviu no oriente Duarte Barbosa. Lisboa, publicações Alfa. p.155. Duarte Barbosa, 1516.

[2] Até ao século XVI as relações Ocidente /Oriente muito irregulares e descontinuadas foram sendo asseguradas pelos persas pré-islâmicos e depois pelos árabes. De referir a importância da rota da seda.

[3] Designação dada aos Chineses

[4] Com destaque para a Companhia de Jesus

[5] Diferente da África negra.

[6] Do século XVI ao século XVIII, produtos chineses como as porcelanas, lacas, mobiliário, papel de parede, etc, dominam o gosto europeu materializado na expressão “chinoiserie”

[7] Referimo-nos a Fernão de Magalhães cuja viagem de circum-navegação acompanhamos desde janeiro com uma peça do acervo do Museu de Lamego.

[8] Costume praticado desde o início do século X até aos meados do século XX.

[9] As infeções eram recorrentes, conduzindo à amputação dos dedos ou do pé.

[10]Bocarro, António – Livro das Plantas de Todas as Fortalezas, Cidades e Povoações do Estado da Índia Oriental. In Visões da China na Literatura Ibérica dos séculos XVI e XVII. Antologia Documental. Revista de Cultura, nº 31 (II Série) Abril/Junho, 1997, p.175

[11] Confúcio (551 aC. – 479 a. C.)

[12] C. 970 d. C.–  Reinado de Li Yu

[13]  Prática que se assemelha às sapatilhas de ponta usadas atualmente pelas bailarinas.

[14] Román, Juan Bautista (1584) – Relação das coisas da China. In Visões da China na Literatura Ibérica dos séculos XVI e XVII. Antologia Documental. Revista Cultural, nº 31 (II Série) Abril/Junho, 1997, p.105

[15] Barros, João (1563) – Ásia: Década terceira. In Visões da China na Literatura Ibérica dos séculos XVI e XVII. Antologia Documental. Revista de Cultura, nº 31 (II Série) Abril/Junho, 1997 p 62.

[16]  Nome pelo qual é conhecida no ocidente a primeira femininista chinesa, Kwan Siew-Wah, inicio do século XX

Bibliografia

Albuquerque, Luis (1989) – Livro do que viu e ouviu no oriente Duarte Barbosa. Lisboa, publicações Alfa. p. 155

Cunha, Luís Sá (Dir.) (1997) – Visões da China na Literatura Ibérica dos Séculos XVI e XVII. Antologia Documental. Macau, Ed. Instituto Cultural de Macau. Nº 31 (II Série), Abril / Junho

Rodrigues, Ana Maria (Coord.) (1999) – O Orientalismo em Portugal. [Séculos XVI-XX]. Lisboa: Comissão para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses. Ed. Inapa

Brigitte Kwan Disponível em: https://enacademic.com/dic.nsf/enwiki/10696289 Consultado em: Junho- 2019

Georgina Pessoa | setembro 2019